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O humor como mecanismo de defesa

Por Giovanna de Boni Fraga (CRP: 07/29470)


Para quem adora séries e viveu os anos noventa conhece a sitcom americana Friends. Caso você não conheça, a série gira em torno de um grupo de seis amigos que vivem na ilha de Manhattan, na cidade de Nova York, onde lidam com as questões da vida adulta de forma cômica e leve enquanto passam o tempo livre na cafeteria Central Perk. Cada um do sexteto tem uma função específica que os tornam únicos e insubstituíveis, o que faz com que juntos sejam ainda mais amados pelo público. Um dos personagens em questão, sempre me chamou bastante atenção por ser um dos mais engraçados, talvez o mais de todas as séries de todos os tempos que é o hilário Chandler Bing. Apesar de ter passado por diversas situações complicadas ao longo da vida, tentava lidar com os desafios de forma espirituosa e divertida, como se os problemas fossem menores do que realmente eram. Assim era Chandler, o piadista do grupo, que não tinha tempo ruim. Será mesmo?


Chandler Bing é aquele amigo engraçado que está sempre contando piadas divertidas, fazendo as pessoas rirem e se divertirem sem o menor esforço. Algumas vezes, acaba sendo até um pouco inconveniente de tão piadista que é. São tantas ironias atrás de zombarias que só de olhar para ele dá vontade de gargalhar, sem nem esperar a piada ser formulada pelas suas palavras ácidas de quem sempre tem um deboche para apontar. O problema de ser o amigo divertido, o piadista do grupo é que nunca se sabe até que ponto são uma descontração do momento, um mecanismo de defesa ou uma verdade mascarada em tom de brincadeira. E Chandler desde o início da série, expressa que esse seu modo de agir, seja através de ironias, sarcasmo, e às vezes piadas um pouco ofensivas, que isso tudo é um escudo construído na sua infância para não lidar com problemas de nenhuma ordem ou origem.


Talvez por essa questão, Chandler desde o início da série seja o único a ter um bom emprego, muito diferente dos seus amigos que buscam se encaixar no mercado de trabalho de acordo com aquilo que acreditam. O emprego no escritório e a remuneração estável dão a ilusão de que sua vida está nos eixos. Isso de certa forma torna ele o integrante do grupo mais bem-sucedido até então. Porém, emocionalmente percebemos que não é bem assim. Por trás de todas as suas piadas sem hora nem lugar existe uma pessoa que vive em constantes conflitos internos devido aos traumas do passado com seus pais. Chandler lida com sua insegurança de maneiras esquivas e nada saudáveis. Muitos desses incômodos interiores refletem nos seus comportamentos patológicos como é o caso do vício no cigarro, que retorna sempre quando está estressado, e na sua incapacidade de chorar. Sem falar que Chandler se esforça para não ter de encarar problemas de origem familiar, amorosa, profissional e pessoal, isso em função do medo de confrontos e dramas.


O que acaba sendo uma complicação nos seus relacionamentos amorosos, já que não consegue sustentar nenhum por muito tempo com medo de não saber como lidar. Chandler tem dificuldade de manter relações duradouras, mesmo tendo desejo de amar e ser amado. Ao mesmo tempo em que tem receio de que as mulheres descubram suas fraquezas, ele age de maneira crítica, e às vezes, até insuportável, encontrando defeitos e as rejeitando antes de criarem um vínculo forte e profundo. Por anos seu namoro mais significativo tinha sido com Janice, e exceto por um breve período, ele não a aguentava mais. Apenas na primeira temporada eles terminaram e voltaram três vezes, virando assim, a piada interna do grupo. Ainda que a situação pareça cômica, essa incapacidade de encerrar um relacionamento tóxico é um sinal de sua profunda inquietação com relacionamentos. Ao longo de toda a série, Janice aparece nos mais inusitados momentos e sempre desperta os piores gatilhos de sentimentos no coração de Chandler.

No final da série, podemos ver um amadurecimento e felicidade genuína em Chandler, diferente do começo. Em determinado momento, os amigos apostaram que ele seria o último a casar, entretanto, ele e Monica foram os primeiros a terem um casamento duradouro. De todos os personagens descritos pela série, ele é o que mais passa por modificações positivas e construtivas, nos mostrando que as inseguranças podem ser superadas, os medos serem vencidos, os ciclos viciosos da autossabotagem serem quebrados. Sem falar que, podemos entender que ter um mecanismo de defesa é saudável até certo ponto, depois disso, é preciso parar para analisar, e assim, enfrentar. Pois mesmo que esse mecanismo de defesa seja através do humor, uma hora precisamos lidar com o fato de que pode ser uma fuga da realidade. Até porque, o uso demasiado de sarcasmo pode mascarar uma questão mais profunda como o caso de uma depressão. Não é à toa que muitos humoristas sofrem por conta disso.


O humor tem uma função defensiva como forma de proteção do sofrimento. Esse mecanismo subjetivo visa anular o sofrimento e a dor, em busca da satisfação e gratificação imediata. O bom humor em si, é sim o modo saudável de lidar com as situações angustiantes e preocupantes, gerando mais prazer e alegria de viver, pois faz bem à saúde e promove laços sociais mais fortes. Porém, é preciso cuidar para não mascarar um sofrimento como forma de humor. O uso de piadas de Chandler se dá muito quando ele se encontra desconfortável com alguma situação, até porque ele tem dificuldades de confiança e utiliza do humor como forma de manter as pessoas a uma distância segura da sua verdadeira essência de ser. Sem as piadas, Chandler se mostra um homem carismático, divertido e amoroso, que apesar de parecer imaturo, na maioria das vezes, é bastante prático e racional. Com a sua evolução, podemos ver um equilíbrio entre diversão e seriedade, o que torna Chandler mais confiante e verdadeiro para ser quem realmente é.


Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Porta Adentro: relatos de tempo em casa; Coautora do aplicativo Amar é; Editora da equipe Psicologia em séries.

Através do autoconhecimento e da escrita terapêutica ajuda pessoas a se conectarem com a sua própria criatividade para a resolução de problemas.

Atende crianças, adolescentes e adultos de forma presencial na cidade de Osório - RS, e online para as demais cidades do Brasil.

Seus interesses estão voltados no desenvolvimento do autoconhecimento através da escrita terapêutica, na criatividade como resolução de problemas, e na saúde e bem-estar através da atenção plena.


Acompanhe seu trabalho em:

https://medium.com/@giovannafraga

https://medium.com/@relatosportaadentro

https://www.instagram.com/giovanna.fraga/

e-mail: giovannafragapsico@gmail.com

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