Em busca de pertencimento em lugares improváveis
- há 15 horas
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por Giovanna de Boni Fraga, CRP 07/29470
Se existe uma série capaz de misturar mistério, comédia e drama no mesmo lugar, essa série é Only Murders in the Building. Lançada em 2021, a produção acompanha três vizinhos completamente diferentes que acabam se aproximando após um assassinato acontecer no prédio onde vivem. Antes mesmo de se conhecerem, os três já compartilhavam um interesse em comum: o fascínio por histórias de mistério e crimes reais. O que começa como uma investigação acaba se transformando também em um encontro entre pessoas solitárias que, até então, viviam isoladas em suas próprias rotinas.
A história acompanha Charles-Haden Savage, um ex-ator de uma série policial em que interpretava um detetive investigador de crimes. Meticuloso, observador e um tanto ingênuo ao confiar nas pessoas erradas, Charles vive preso a uma rotina solitária e repetitiva. Já Oliver Putnam é um diretor de teatro excêntrico, dramático e constantemente envolvido em problemas financeiros, além de carregar uma relação conturbada com o filho. Quando os assassinatos começam a acontecer no Arconia, Oliver vê na investigação uma oportunidade de dar um novo sentido à própria vida. Por fim, Mabel Mora é uma jovem artista reservada e inteligente, que possui uma ligação misteriosa com o prédio, algo que vai sendo revelado aos poucos ao longo da série. Diferente dos outros dois, Mabel raramente demonstra tudo aquilo que pensa, mantendo sempre certa distância emocional durante as investigações. Apesar das diferenças, os três acabam formando um trio improvável em meio aos assassinatos que acontecem no condomínio Arconia, onde cada temporada gira em torno de uma nova morte.
O mistério que une os três personagens vai muito além da simples curiosidade por crimes reais. Apesar de serem observadores, curiosos e até intrometidos, não é apenas a investigação que mantém os três conectados. Aos poucos, a parceria criada entre eles também se transforma em um espaço de acolhimento diante da solidão e do caos presente em suas vidas. Em meio às próprias dificuldades, eles encontram uns nos outros uma forma de sair do isolamento em que viviam antes daquele encontro improvável.
Talvez seja justamente esse um dos pontos mais interessantes da série. Muitas vezes acreditamos que amizades surgem apenas por afinidades óbvias ou por longos anos de convivência. No entanto, a vida adulta costuma mostrar um cenário diferente. As responsabilidades aumentam, as rotinas se tornam mais fechadas e, pouco a pouco, passamos a acreditar que criar novos vínculos é algo cada vez mais difícil. Algumas pessoas chegam até mesmo a concluir que já passaram da idade de fazer amigos.
Only Murders in the Building questiona essa ideia. Se não fosse pelo interesse em comum ou pelo acaso que colocou os três diante do mesmo mistério, provavelmente Charles, Oliver e Mabel jamais teriam percebido a importância daquela amizade. Vivendo no mesmo prédio, passavam diariamente uns pelos outros sem realmente se conhecer. O encontro entre eles só aconteceu porque algo rompeu a rotina e criou um espaço para a aproximação.
Na psicologia, sabemos que o pertencimento é uma necessidade humana fundamental. Desde o nascimento, dependemos da presença de outras pessoas para sobreviver, aprender e nos desenvolver. Mesmo na vida adulta, continuamos precisando de vínculos significativos. Isso não significa estar cercado de pessoas o tempo todo, mas sentir que existe um lugar onde podemos ser vistos, compreendidos e aceitos.
A série também mostra como diferentes experiências podem influenciar a forma como nos relacionamos. Alguns personagens lidam com perdas, frustrações e decepções tornando-se mais desconfiados ou afastados. Outros conseguem encontrar formas mais saudáveis de reconstruir seus laços. Em ambos os casos, fica evidente que a maneira como nos conectamos com os outros é profundamente influenciada pelas experiências que carregamos ao longo da vida.
Talvez a solidão não esteja apenas na ausência de pessoas, mas também na dificuldade de permitir que elas se aproximem. Com o passar dos anos, nos tornamos mais cautelosos, inseguros e seletivos. Embora isso possa nos proteger de algumas frustrações, também pode nos impedir de viver experiências significativas. Afinal, nenhum dos protagonistas imaginava que encontraria amizade, apoio e pertencimento investigando assassinatos dentro do próprio prédio.
No fim das contas, Only Murders in the Building nos lembra de algo simples, mas importante: os vínculos nem sempre surgem onde esperamos. Às vezes, basta um interesse compartilhado, uma conversa inesperada ou até mesmo um acontecimento fora do comum para aproximar pessoas completamente diferentes. O mistério é o ponto de partida da história, mas é a conexão humana que faz com que ela seja tão especial.

Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Porta Adentro: relatos de tempo em casa; Coautora do aplicativo Amar é; Editora da equipe Psicologia em séries.
Através do autoconhecimento e da escrita terapêutica ajuda pessoas a se conectarem com a sua própria criatividade para a resolução de problemas.
Atende crianças, adolescentes e adultos de forma presencial na cidade de Osório - RS, e online para as demais cidades do Brasil.
Seus interesses estão voltados no desenvolvimento do autoconhecimento através da escrita terapêutica, na criatividade como resolução de problemas, e na saúde e bem-estar através da atenção plena.
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