O preço da autenticidade: o que Wandinha nos ensina sobre ser diferente
- há 14 horas
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por Giovanna de Boni Fraga, CRP 07/29470
Wandinha é uma adolescente inteligente, sarcástica e um pouco morta por dentro, que adora investigar mistérios sombrios enquanto assusta os outros com seu jeito excêntrico. Na série da Netflix, ela é mandada para a Academia Nevermore — uma escola para os “excluídos” — depois de ser expulsa mais uma vez. Seus pais acreditam que ela vai se encaixar entre os semelhantes, mas o problema é que Wandinha nunca quis se encaixar em lugar algum. Prefere ser diferente, distinta, e se pudesse, sairia correndo de lá. Mas acontecimentos misteriosos acabam mudando seus planos e a empurram para uma jornada que mistura autodescoberta e aceitação.
Desde pequena, ela já se sentia deslocada. Em casa, na escola, em qualquer lugar onde o “normal” era regra. E isso nunca foi um problema, até o momento em que ser diferente passou a incomodar os outros. Ser quem é, por si só, se tornou um ato de rebeldia. Em Nevermore, ela encontra colegas igualmente fora do padrão: Enid, a colega de quarto colorida e expansiva que ainda não despertou sua loba interior; Xavier, o artista que pinta o que sonha; e Tyler, o garoto comum da cidade que esconde um lado obscuro. Ninguém ali é realmente normal — e talvez essa seja a principal reflexão da série: o que significa ser normal? Seguir a norma? Mas qual é a norma, quando todo mundo é diferente à sua maneira?
Vivemos em um tempo em que se fala muito sobre autenticidade e aceitação, mas ao mesmo tempo, seguimos padrões invisíveis do que é “ser você mesmo”. Queremos ser únicos, desde que isso caiba dentro do esperado. E quando alguém sai um pouco da linha, o julgamento vem rápido. A sociedade tem essa necessidade de rotular — se uma criança é agitada, ganha o diagnóstico de TDAH; se é mais quieta, dizem que é autista. Nem sempre é, mas a gente sente que precisa de uma explicação para tudo, como se a diferença fosse um erro a ser corrigido.
A autenticidade, no entanto, é justamente o contrário disso. Ser autêntico é ser legítimo, verdadeiro, sem precisar se encaixar. Mas o que é genuíno costuma ter um preço — o de não caber em todos os lugares. E tudo bem. Wandinha nos lembra disso. Ela não se parece com ninguém, nem com os colegas, nem com os moradores da cidade, nem mesmo com os pais. É o seu jeito único de ser que a torna tão interessante.
Não precisamos de poderes paranormais para sermos autênticos. Precisamos apenas nos conhecer com profundidade — com nossas sombras, falhas e luzes — e respeitar o que é genuíno em nós. Ser autêntico não é tão difícil assim, é na verdade muito simples. O difícil é sustentar essa simplicidade em um mundo que tenta nos moldar o tempo todo. Somos um conjunto de partes: o lado profissional, o pessoal, o social. Mesmo que mostremos versões diferentes de nós, o que é verdadeiro sempre aparece, cedo ou tarde.
No fim, não precisamos provar nada para ninguém. Só precisamos ser o que pulsa forte dentro da gente — aquilo que é verdadeiro, mesmo que incompreensível. Talvez o maior mistério de todos seja justamente esse: ser quem se é.

Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Porta Adentro: relatos de tempo em casa; Coautora do aplicativo Amar é; Editora da equipe Psicologia em séries.
Através do autoconhecimento e da escrita terapêutica ajuda pessoas a se conectarem com a sua própria criatividade para a resolução de problemas.
Atende crianças, adolescentes e adultos de forma presencial na cidade de Osório - RS, e online para as demais cidades do Brasil.
Seus interesses estão voltados no desenvolvimento do autoconhecimento através da escrita terapêutica, na criatividade como resolução de problemas, e na saúde e bem-estar através da atenção plena.
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e-mail: giovannafragapsico@gmail.com



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