Pacificador - Emilia Harcourt sofre de masculinidade tóxica???
- há 14 horas
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(Possíveis spoiler da segunda temporada de Peacemaker)
por Andrey da Silva Aires - CRP 07/33087
Na segunda temporada de Pacificador (do original, Peacemaker), a personagem Emilia Harcourt, interpretada por Jennifer Holland, está passando por sérias dificuldades. Após os eventos ao final da primeira temporada da série, ela foi demitida de seu emprego e encontra-se “blacklisted”, ou seja, seu nome faz parte de uma lista de pessoas que não podem ser contratadas por nenhum serviço militar ou policial dos USA.
Com isso, a personagem encontra-se, de muitas maneiras, no fundo do poço. Logo nos primeiros episódios vemos que sempre que a dureza de sua realidade se apresenta, ela recorre a brigas de bar e uso de álcool para lidar com seus problemas, o que a leva a buscar ajuda de algum tipo de profissional da área da saúde mental que lhe dá um “diagnóstico” de “caso severo de masculinidade tóxica”, situação que a deixa bastante, digamos, transtornada e que a leva a reagir com bastante agressividade.
Primeiramente, é importante deixar claro que “masculinidade tóxica” não é um diagnóstico psicológico real, ou seja, não é reconhecido como um dos vários transtornos mentais existentes. Esse termo é usado para designar um conjunto de atitudes, historicamente perpetrada em sua maior parte por homens, onde há uso de agressividade e violências variadas para estabelecer relações de poder com outros (sejam outros homens ou mulheres), sendo que essas relações de poder acabam por serem fatores de sofrimento para todos os envolvidos.
Como muito bem exemplificado por Emilia, se perceber tendo esse tipo de atitudes geralmente é um processo lento e bem difícil. Inicialmente, ela se prende a ideia de que seria impossível para ela exibir comportamentos de masculinidade tóxica, visto que ela se identifica como uma mulher. Esse é o equívoco mais comum que as pessoas cometem ao pensar sobre assuntos relacionados a machismos e feminismos, um que faz muito sentido! Claro que parece que esses termos estão ligados a homens e mulheres especificamente, e historicamente, em suas concepções, fazia muito sentido que se pensasse neles dessa forma mais dicotômica.
Porém, o mundo mudou, e em muitos sentidos para melhor. Com essa mudança, esses conceitos também precisaram passar por revisões e evoluiram, sendo que atualmente faz mais sentido pensar neles como sendo conjuntos de atitudes que qualquer pessoa pode exibir, influenciados por fatores como sexo, identificação de gênero, classe social, entre outros, mas que são independentes dessas influencias. Qualquer um pode exibir comportamentos de violência e agressividade, seja conosco ou com outros e em qualquer relação, e independente de quem exibe esse comportamento, ao tentarmos usá-los para exercer influência nas nossas relações, eles são sempre inadequados.
Embora esse “diagnóstico” seja completamente vazio de qualquer tipo de valor e completamente errado, a série usa a cena em que ela conversa com o profissional como uma forma bem humorada de deixar claro o quão inadequadas as atitudes de Emilia são. Harcourt começa a série tendo quase somente atitudes que, caso não soubéssemos se tratar de uma personagem feminina, e olhássemos apenas para as atitudes, quase certamente iríamos pensar que um homem é quem está sendo descrito. Então sim, podemos dizer que suas atitudes são entendidas como masculinidade tóxica, mas isso só nos ajuda a entender como violência e agressividade são inefetivas para resolver problemas, independente do gênero de quem usa elas como ferramenta.
Como se não fosse difícil o bastante pensar que às vezes, eu posso agir de uma forma machista, independentemente de quem eu sou, o que adiciona ainda mais complexidade ao assunto é que Harcourt é uma das nossas heroínas da série! PERA AÍ UM SEGUNDO, como assim a nossa heroína, uma das pessoas por quem torcemos, exibe comportamentos de “macho tóxico”? A gente devia detestar esse tipo de gente, né? Bem…
Emilia Harcourt lindamente nos mostra que qualquer um que exibe este tipo de comportamento não necessariamente se torna uma pessoa completamente desprezível, e que além daquelas atitudes, ela tem outros comportamentos, na série, principalmente os de demonstrar carinho e lealdade a seus amigos. Pode ser bem difícil imaginar que uma pessoa que exibe comportamentos machistas, ainda assim, pode ser uma pessoa legal em outros sentidos, mas isso significa que mesmo que a gente se dê conta de que fizemos coisas desse tipo, isso não é o mesmo que admitir que somos pessoas terríveis.
É muito mais gentil com nós mesmos e com o restante das pessoas pensarmos que essas atitudes são isoladas, e portanto, não representativas de um ser humano completo. Ou seja, ninguém é machista, mas podemos agir como um. De forma similar, ninguém é feminista, mas buscamos agir como um o tanto quanto conseguirmos. No fim das contas, o importante é a contínua reflexão acerca das nossas atitudes, e é preciso coragem para admitir que nem sempre agimos da melhor forma nas nossas relações, mas se você está lendo isso, eu estou disposto a apostar que assim como Emilia Harcourt, coragem não é uma coisa que te falta.

Andrey da Silva Aires é psicólogo clínico de indivíduos, famílias, casais, especialista em psicologia e sexualidade e doutorando em psicologia.
Também é criador da página @andrey.aires.psicologia no Instagram onde desenvolve um trabalho focado em abordar conceitos da psicologia de um jeito simples, muitas vezes usando a cultura pop como paralelo para nossa vida.



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