Billy Hargrove: quando a violência vem de casa

por Giovanna de Boni Fraga, CRP 07/29470


A série Stranger Things de ficção científica e terror retrata a vida na cidade de Hawkins, em Indiana nos Estados Unidos na década de 80. Os acontecimentos na cidade tem um quê de mistério, terror e suspense. Um dos personagens que chegou a partir da segunda temporada trouxe a vivência de um jovem violento, com problemas de comportamento, e falta de responsabilidade para com os sentimentos dos outros, é ele Billy Hargrove.


Meio irmão de Max Mayfield, Billy se torna um dos personagens secundários mais importantes ao longo dos episódios da segunda temporada, e o antagonista principal da terceira temporada, com uma reviravolta no final. Billy Hargrove é filho de Neil, um homem violento e imprevisível, e quanto à mãe dele, o nome não foi identificado na série, contudo, a mostrava sendo uma mulher doce e agradável, diferente do pai. Quando criança, Billy demonstrava muito apreço pela mãe, e medo do pai. Ele era um garoto normal para a sua idade, que gostava de surfar, e se divertir. Com o passar dos anos, e a violência doméstica aumentando em casa, Billy começou a apresentar comportamentos agressivos para com os amigos, provavelmente em decorrência do que presenciava em casa.


Billy tem uma presença cativante, irritada e perversa. Tem um gênio violento e imprevisível, na qual ele apresenta apenas as pessoas mais próximas, ou consideradas fracas, como as crianças da cidade de Hawkins. Ele demonstra rivalidade a Steve, se mostrando como superior. Há sutis traços de racismo, manifestado em relação a Lucas, quando ele pede a irmã Max que não fique perto do menino, e até dá um susto no garoto ‘’fingindo’’ que ia atropelá-lo e aos amigos se eles não saíssem da estrada. Billy também apresenta abuso de álcool, tornando-se rei barril na cidade. Contudo, mesmo ele sendo considerado o antagonista da história, e tendo traços de rebeldia, crueldade e violência, quando apresentado o pai dele, e mostrado o como Billy era tratado pelo próprio responsável, somos questionados a repensar que talvez as atitudes dele fossem em decorrência da agressividade em casa. E isso é confirmado na terceira temporada, quando mostra Billy sendo uma criança alegre, tranquila e despreocupada.


A violência infantil produz diversas consequências para o desenvolvimento e formação do sujeito. Nessas circunstâncias é preciso refletir sobre o papel da família, e como ela vem reproduzindo os comportamentos violentos na criação dos filhos, tornando sujeitos que demonstram diversos distúrbios comportamentais, e problemas de se relacionar. Enquanto Neil, pai de Billy, o insultava, humilhava, e agredia ele e a mãe na infância, ele não deve ter previsto que o filho se tornaria um adulto hostil. Porém, mesmo na vida adulta, Neil ainda era desagradável com Billy, e isso o fazia ser ainda mais agressivo.


Nem toda a criança exposta à violência doméstica apresenta aumento de agressividade e impulsividade. A violência infantil pode levar a criança apresentar: dificuldades de concentração e aprendizado; autoimagem negativa; sentimento de inferioridade; síndrome do pânico; distúrbios alimentares; depressão; pensamentos suicidas; comportamento agressivo; dificuldade de adequação social; abuso de álcool e drogas – esses três últimos, Billy apresentava com clareza – entre outros. Cada criança vai reagir de modo diferente quando vivencia violência doméstica. Algumas podem intervir, se isolar ou se tornar agressivas. Há crianças em que podem resolver seus conflitos através da violência; e também há àquelas em que se sentem responsáveis e culpadas em decorrência do que presenciava em casa.


Billy Hargrove teve uma reviravolta no final da terceira temporada, se tornando o defensor de Eleven quando a situação estava complicada. Se ele com todas as suas questões conseguiu reverter o seu jeito de ser, é possível fazer com que um indivíduo agressivo se torne mais suave, tranquilo para viver bem em sociedade. Começando por observar a si mesmo, e entendendo os comportamentos familiares e os ajustando de um modo que se tornem menos prejudiciais. Com a ajuda de um especialista o processo de cura é mais rápido. Mas depende da pessoa de querer buscar ajuda, caso ela queira mudar seu jeito de ser.


Giovanna de Boni Fraga é Psicóloga formada pela PUCRS em 2018, CRP 07/29470, e escritora. Tem experiência em atendimento a crianças e adolescentes, grupos terapêuticos, orientação vocacional e escrita criativa.

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