THE GOOD PLACE - A morte aniquila o sentido da vida?

Por Ronnedy Pires de Paiva (CRP 08/26257)


Para quem acompanha a saga de Chidi, Tahani, Eleonor e Jason na série The Good Place, sabe o quanto eles queriam entrar no “lugar bom” e o quanto lutaram para conseguir esse feito, porém, ao adentrarem no lugar que tanto sonharam no pós-vida, acabam por se depararem com algo inusitado: o tédio.


O tédio é uma sensação especificamente humana e pode ser descrito como uma: “1. sensação de enfado produzida por algo lento, prolixo ou temporalmente prolongado demais; 2. sensação de aborrecimento ou cansaço, causada por algo árido, obtuso ou estúpido”(Oxford Languages). Quando essa turma entra no “lugar bom”, encontram outros moradores, esses, que por sua vez, já gozavam da eternidade, não encontravam estímulos para fazer alguma coisa, ainda que fosse muito boa ou mesmo divertida, pois algo lhes foi tirado, algo que, em vida, lhes dava a sensação de aproveitamento, a saber, o limitação da vida. Há um ditado popular que diz: “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”.


Esse ditado é, comumente, usado para evitar o ‘adiamento’, o ‘deixar para depois’, a fim de que se aproveite o momento presente, pois o amanhã não é totalmente garantido. E existe outro ditado, não tão popular e que é usado mais em brincadeiras, que diz: “não deixe para amanhã o que você pode deixar para depois de amanhã”. Ou seja, adie o quanto for possível aquilo que é de sua responsabilidade ou que seja chato de ser feito, deixe para depois isso que você tem que fazer.


O interessante disso tudo é que, quando pensamos na morte, parece que é ela quem tira o sentido da vida, pois, do que adianta viver, fazer, encontrar um sentido, se tudo isso acaba? Mas é exatamente o contrário. Quando nos deparamos com o tempo sem limitação, com a eternidade, com a garantia do amanhã, o sentido da vida é praticamente aniquilado, pois, para que fazer hoje se tem o amanhã? Isso traz segurança! Já a morte traz a sensação de imediatismo. O sentido da vida ou, mais especificamente, o sentido do momento, tem algumas características, e esse caráter único e irrepetível que a vida proporciona, é um deles. Quando entendemos o sentido da vida ou, o sentido na vida, começamos a compreender o tédio que tomava conta do “lugar bom”.


A morte, que retrata o fim, tem um papel fundamental na execução do sentido. Por ser algo certo, a morte traz um caráter de urgência, ao contrário da eternidade. Sem a limitação do tempo, volto a repetir, tudo perde o sentido, pois um aspecto desse sentido é extinto, e quando o pessoal da série percebe isso, bolam um plano genial. Eles inserem nessa realidade uma porta que acaba com a eternidade das pessoas ou, melhor dizendo, uma pessoa que opta por passar por essa porta, deixa de existir, morre. Ao trazerem essa possibilidade, é possibilitado, apesar de não terem um tempo limitado, uma vez que passa pela porta aquele que quiser e quando quiser, encontrar uma oportunidade de saírem do tédio e de executarem algo proveitoso em suas vidas no pós-vida.


Desta forma, eles podem curtir o momento “que lhes resta”, até que, satisfeitos com a vida na pós-vida, passam por essa porta e deixam de existir. Isso me faz pensar o quanto a eternidade não traz consigo também um sofrimento, e talvez isso seja a explicação, ou parte dela, para quando alguém foca tanto em algo que está acontecendo no momento, como a perda de um ente querido, que fica imerso nessa dor, parecendo que o tempo nunca passa, que o sofrimento será eterno. Mas, quando essa pessoa compreende que a vida é muito mais do que a fração dos seus momentos, é possível alegrar-se apesar do sofrimento, rir apesar da dor e ser feliz, apesar da ausência, pois tudo passa, tudo acaba, e nesse acabar, é possível, quase de maneira contraditória, encontrar um sentido, até mesmo para esse sofrimento, transformando-o em triunfo.


A morte não aniquila o sentido da vida, pelo contrário, a morte traz esse caráter de urgência, dando um sabor, todo especial, para que seja executado as respostas que a vida, ou que os outros, fazem a nós, proporcionando a felicidade de se viver uma vida que tenha sentido. E assim foi, com aqueles que estiveram no “lugar bom” da série.



Ronnedy Pires de Paiva é Psicólogo, Pós-graduando em Psicologia Existencial, Humanista e Fenomenológica. Trabalha em clínica sob orientação da Logoterapia e traz reflexões sobre a existência, cotidiano, sentido da vida e outros assuntos no Instagram @ronnedypaiva_.


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