Superman and Lois: Nos tornando Superman

por Andrey da Silva Aires - CRP 07/33087


Superman & Lois é um remake/reboot da antiga Lois & Clark (referência de gente mais velha). Desta vez, no entanto, acompanha Lois, Clark e seus dois filhos adolescentes: Jonathan e Jordan ao se mudarem para Smallville após o falecimento de Martha, que deixa para o filho sua fazenda.


Durante a série vemos Kal’el fazendo suas coisas de Superman: salvando ônibus de quedas, parando alguns bandidos e lidando com alguns alienígenas de vez em quando. Mas ninguém liga pra isso, esse dia a dia dele é fácil. Reparamos ao acompanhá-lo que os verdadeiros problemas do Super Homem não são lidar com a parte super, mas sim com a parte homem.


Um de seus problemas em determinado momento, é que ele se distancia de seus filhos por estar “trabalhando demais” e passar muito tempo salvando o mundo ao invés de passar tempo com eles. Quando ele começa a passar tempo com seus filhos, não pode simplesmente abandonar o resto do planeta, o que faz com que seu tempo como marido de Lois seja sacrificado, criando outro problema com o qual ele precisa lidar.


Seus filhos passam por seus dramas pessoais (sobre os quais não vou entrar em detalhes pois eles merecem um texto só pra eles), Lois passa por altos e baixos em seu novo emprego. Enfim, todas coisas que um marido e um pai deveriam se preocupar em relação a sua família, além de claro, seu “emprego” de super-herói.

A série faz questão de mostrar um Superman que é extremamente humano: ele fica triste, erra, tem problemas em seu casamento e em criar seus filhos, todas as coisas que ocorrem com todos nós. Todo esse contexto pode fazer você pensar: “se ele é um humano comum como eu, como eu posso ser super como ele?”. Primeiro vamos pensar em como ele balança entre ambos os seus mundos, o de trabalho e o familiar.


Sua família compreende o fardo de ser o Super Homem, isso não faz com que eles não sintam sua falta, o que Kal’el tem que muitas vezes não encontramos na vida real é a percepção que os dramas de seus amados fazem sentido. É muito mais comum ouvir coisas como “mas o que fulana(o) não entende é que eu faço isso por eles, para trazer comida pra casa, para dar as coisas para eles, etc”. O que o torna diferente é a sua disponibilidade de observar a situação de outros pontos de vista.


Não é que ele vá desistir de agir como super herói, assim como nós não temos a opção de não trabalhar, mas ao se dispor a ouvir que as reclamações existem por causa de eles sentirem sua falta, ele também passa a responder diferente a elas. Como ele explica suas responsabilidades e como reage quando seus filhos começam a lhe “dar um gelo”, e Lois parece cada vez mais estressada é permeado pelo fato de que ele vê seu papel nos estresses daqueles que ele ama.

Outra de suas características é que ao notar que a maioria (senão todas) as suas dificuldades familiares têm origem em algum tipo de sofrimento, é que ele decide abordar o assunto claramente. Na prática, Clark pergunta qual o problema, escuta o que lhe dizem, e o mais importante de tudo, presta atenção ao significado e ao conteúdo do que lhe dizem, mais do que na forma como as pessoas falam.


Num mundo roteirizado de série é fácil personagens falarem sobre seus problemas, mas na vida real por mais que tentamos falar sobre nossos problemas com nossas famílias, podemos esbarrar em discussões, gritos, xingamentos entre outras coisas que dificultam a solução dos problemas. Requer uma pessoa realmente super, assim como Clark, para tentar fazer as coisas que abordamos acima, sendo que esta precisa ser feita intencionalmente, pois é muito mais fácil respondermos a gritos com gritos, e xingamentos com xingamentos.


A série demonstra a possibilidade real de todos nos tornarmos como ele quando apresenta Lois como uma pessoa que exibe as mesmas características de seu marido, mas que não voa nem levanta carros acima de sua cabeça. Na verdade, ambos somente conseguem alcançar seus potenciais de resolução de problemas por que existe um esforço por parte do casal de tentar as mesmas coisas: ambos querem falar, assim como ouvir, e também resolver os problemas.


Em Kill Bill Vol. 2, Bill diz que Clark Kent é a forma fraca, insegura e patética que Kal’el enxerga a humanidade. Bill nunca tentou se preocupar em resolver um problema em sua família, nunca tentou conciliar uma briga com os filhos nem teve que balancear sua vida profissional com a de trabalho, então não faz ideia do quão extremamente complexo e difícil essas coisas são de verdade, por isso, também não conseguiria se relacionar com as dificuldades da vida de todos os leitores desse texto.


Mas você não é o Bill não mesmo? Você que está lendo entende que Clark Kent passa por dificuldades hercúleas em sua vida, e que elas não têm nada a ver com Darkside ou Lex Luthor. Você sabe disso porque também é um Hércules moderno que diariamente enforca leões metafóricos e em muitos aspectos, já é extremamente parecido com o maior herói da DC Comics.


Para finalizar, gostaria de comentar que me ocorreu a possibilidade de que uma leitora se sinta pouco adereçada pela minha escolha de focar em Clark e não em Lois, o que seria possível, já que ambos exibem as mesmas características. O Super Homem (quando escrito certo) é mais do que qualquer coisa, um símbolo para aqueles que estão a sua volta, e as características que fazem dele super não tem nada a ver com gênero, sexo, orientação sexual ou qualquer outra coisa. Qualquer um (e na minha opinião todos) podem se sentir inspirados por ele, e aspirar exibir com aqueles à sua volta o mesmo esforço relacionado ao modo como ele trata as pessoas à sua volta.



Andrey da Silva Aires é psicólogo clínico de indivíduos, famílias, casais e pós graduado em psicologia e sexualidade. Também é criador da página @andrey.aires.psicologia no Instagram e Facebook onde desenvolve um trabalho focado em abordar conceitos da psicologia de um jeito simples, muitas vezes usando a cultura pop como paralelo para nossa vida. Atua também em horários vagos como sósia do Henry Cavill.



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