Sherlock – o sociopata funcional (ou não?)

por Giovanna de Boni Fraga - CRP 07/29470


Sherlock Holmes, detetive particular da cidade de Londres, morador da Rua Baker 221B é um indivíduo bastante complexo, com características únicas e peculiares demais para um ser comum. Ele é um homem da ciência, que preza a razão ao invés da emoção, ainda que tenha grande afeição pelos amigos verdadeiros. Sherlock é muito inteligente, observador e arrogante. O detetive, além disso, é um excelente violinista. Ele tem pouco interesse por arrumação ou ordem - o que para seu melhor amigo, John Watson, se torna uma das grandes dificuldades de convivência. Quando não está resolvendo casos é desapaixonado e frio, com um tom melancólico; e durante as investigações ele é confiante e entusiasmado. Por ter essa personalidade bastante incomum acaba causando estranhamento em quem não o conhece direito, o que o torna, de certo modo, um vilão aos olhos de quem vê. Muitos indivíduos da Scotland Yard o chamam de psicopata, contudo, Sherlock, se autointitula como sociopata funcional. Mas afinal, quem está certo?

A sociopatia e a psicopatia nada mais são do que transtornos de personalidade antissocial que tem como características: tendência a não seguir normas sociais; falta de empatia; ausência de remorso; indiferença e violação dos direitos dos outros; falsidade e manipulação para conseguir o que quer. Quem sofre dessas patologias tem dificuldades de se relacionarem, não possuem empatia, o egocentrismo é bastante aparente, não aprendem com experiências mesmo que gerem dano a si próprios ou aos outros. Os principais comportamentos são: agressividade, violência, ameaças, violações, furto e roubo. O que difere as duas, segundo vários autores, são os fatores genéticos, biológicos e fisiológicos versus os fatores ambientais, relacionais e sociais. Além dos comportamentos que são visivelmente distintos: o psicopata seria teatral, tendo a dissimulação como comportamento central. Além de produzirem crimes hediondos sem sentir nenhuma emoção de dor relacionada aos outros. Já os sociopatas criam conflitos sociais associados ao crime. São menos estáveis, o que causa a irregularidade de comportamento, deixando mais pistas nos crimes cometidos pela impulsividade.

O sociopata funcional, que Sherlock tanto se diz ser, nada mais seria do que um indivíduo que, apesar de sofrer a sociopatia, tem a situação sob controle, ou seja, que os efeitos não abalam a sua interação com outras pessoas. Apesar de ser difícil diagnosticar um sociopata ou mesmo psicopata, pois passam credibilidade nas palavras, Sherlock Holmes não se trata de nenhum dos dois. É fato que o detetive particular não tem objetivo de se conectar com as pessoas através de interações sociais. Porém, se conecta com algumas delas, mostrando afeição de um modo peculiar. Sua mente aguçada faz com que esteja sempre à frente dos demais. Ele consegue saber quase tudo de uma pessoa a poucos passos dele apenas observando o celular. Sherlock não tem interesse em assuntos rotineiros, como o sistema solar. Muitas pessoas não gostam dele pelo fato de ele dizer a verdade sem pensar nos sentimentos dos outros. Mas isso não significa que não sente remorso quando percebe que feriu os sentimentos de alguém. John Watson, Mrs. Hudson e Molly Hooper são pessoas que Sherlock tem carinho, e empatia por elas.

Então como Holmes seria um sociopata funcional tendo tanto apreço pelas pessoas importantes da sua vida? Uma das características para se excluir o diagnóstico do transtorno antissocial além da violação de normas, é a idade. Como ele já tem mais de dezoito anos, poderia fechar diagnóstico pela idade considerando algumas características. Porém, os acontecimentos que se antecedem aos dezoito anos não foram ilustrados na série, apenas a infância nos últimos episódios da quarta temporada. E os comportamentos mostrados nesse período não apresentam sintomas de personalidade antissocial. Mas sim, a sua maneira de se portar diante das pessoas e situações é bastante peculiar. Holmes tem dificuldade de entender regras; sua capacidade intelectual é bastante avançada; ele tem dificuldade de compreender o que os demais sentem ou pensam, isso porque não sabe se relacionar; tem comportamentos estranhos, e às vezes, age de modo inapropriado considerado pela sociedade; tem conhecimento detalhado sobre assuntos específicos; parece insensível, apesar de não ser; procura ficar sozinho; tem interesse intenso e focado.

O diagnóstico que melhor se enquadra ao personagem Sherlock Holmes é a síndrome de Asperger. Então, não tem como ser um sociopata funcional, apesar da convicção das suas palavras. A forte empatia que tem pelos amigos, nenhuma característica encontrada antes dos dezoito anos; a presença de remorso e ressentimento faz com que o Sherlock se encaixe melhor na síndrome de Asperger. Pois a dificuldade que ele tem com os outros, na verdade, não é pela falta de empatia ou de interesse, e sim por não conseguir se relacionar de forma tranquila. Tanto é que prefere ficar sozinho, e muitas vezes, permanecer dias sem dizer uma palavra. Além do mais, quando precisa focar e detalhar um caso, ele se isola, para entrar no seu palácio mental, que nada mais é do que sua própria mente, onde retém todas as informações necessárias para resoluções de situações complexas. É como o próprio Sherlock declara: “acredite em mim, as coisas não são o que parecem’’.


*Observação: na edição número 5 do blog Psicologia em Séries, no texto "Desvendando Sherlock Holmes", eu descrevo em detalhes as características peculiares do nosso detetive mais amado.


Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Porta Adentro: relatos de tempo em casa; Coautora do aplicativo Amar é; Editora da equipe Psicologia em séries.

Através do autoconhecimento e da escrita terapêutica ajuda pessoas a se conectarem com a sua própria criatividade para a resolução de problemas.

Atende crianças, adolescentes e adultos de forma presencial na cidade de Osório - RS, e online para as demais cidades do Brasil.

Seus interesses estão voltados no desenvolvimento do autoconhecimento através da escrita terapêutica, na criatividade como resolução de problemas, e na saúde e bem-estar através da atenção plena.

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