Sexify e a relação da mulher com o sexo

por Emmanuelle Camarotti - CRP 07/31865


Sexify é uma série polonesa exibida pela plataforma Netflix e traz a chocante ideia de que o sexo tem como função agradar ao homem. Polêmico, eu sei! Já no primeiro episódio nós percebemos que o prazer da mulher é algo secundário e quase inexistente na vida de uma das personagens. Contudo, a ficção está mais próxima da realidade do que imaginamos. Quantas mulheres você conhece que já admitiram fingir um orgasmo? Quantas mulheres você conhece que falam abertamente sobre masturbação, sexo ou qualquer outro assunto que envolva a sua própria sexualidade? A resposta provável é que são poucas ou nenhuma. Por isso, te convido para pensar sobre como as mulheres aprendem a se relacionar com seu próprio corpo usando cenas de Sexify.


Quando a personagem principal decide criar um aplicativo para ajudar mulheres a atingir o tão sonhado orgasmo, a mesma se depara com a falta de conhecimento sobre o próprio corpo. Desde crianças aprendemos que não podemos nos tocar, pois é feio explorar qualquer curiosidade relacionada ao próprio corpo. Já na adolescência, aprendemos que a partir da primeira menstruação há a possibilidade de engravidar, por isso, é necessário evitar o sexo. Precisamos, também, esconder a menstruação em si, pois ela é sinônimo de algo sujo. Ou seja, recebemos mensagens o tempo inteiro de que nosso corpo é inadequado e não deve ser conhecido. É importante que saibamos o que fazer quando estamos menstruadas, como devemos nos comportar socialmente e que se tocar é errado. Então como vamos saber o que fazer para experimentar um orgasmo? Como saberemos de que forma queremos ser tocadas por uma outra pessoa se nós mesmas não sabemos?


Sexify navega por esse universo secreto e cheio de tabus de uma forma direta e explícita. A ideia de que as pessoas só pensam em sexo ronda todos os episódios e gera muitos questionamentos a quem assiste. De que forma eu aprendi a me relacionar com o sexo? Como vou estabelecer limites se eu não conheço? Como vou construir um diálogo saudável e aberto com as pessoas com quem me relaciono se existe uma tratado social que diz que a mulher não pode falar em sexo? Esses foram apenas alguns dos questionamentos que surgiram ao longo dos episódios.


O convite de Sexify a quem está do outro lado da tela é para que você não tenha medo de descobrir o que lhe dá prazer, afinal de contas, não há nada de errado em conhecer o próprio corpo. Pare e pense por um momento: o que significa o sexo para você? Dependendo da sua idade, gênero, orientação sexual (entre outros fatores) a resposta para essa pergunta pode precisar de uma certa reflexão, afinal de contas, não é todo dia que alguém faz este tipo de questionamento. O porém, é que talvez os homens consigam encontrar uma resposta mais rápido do que as mulheres para essa pergunta. Aos meninos é concedido o direito de explorar seus corpos e sexualidade, já as meninas…


Outro aspecto interessante da série é a discussão sobre pornografia. Quando uma das personagens descobre que seu noivo assiste vídeos pornográficos, ela começa entrar neste mundo e criar momentos para agradá-lo, o que é recebido com estranheza. Ao mesmo tempo em que pode ser um recurso importante para o autoconhecimento, constrói, também, uma visão deturpada do que é o sexo. Atualmente, a discussão sobre o vício em pornografia tem ganhado muito espaço entre no universo masculino, afinal de contas, o pornô é feito para homens. Pensando desta forma, os homens vivenciam outros problemas relacionados ao sexo que estão mais ligados à performance e excesso de estímulo visual. Enquanto as mulheres pouco cogitam a ideia de usar a pornografia como recurso para o conhecimento do seu corpo. Por fim, fica o questionamento: de que forma você aprendeu a se relacionar com seu corpo e sua sexualidade?


Emmanuelle Camarotti é uma mulher que ama conversar sobre os diversos tabus que envolvem a vida da mulher. Em sua atuação como psicóloga, atende casais e entende que trabalhar a sexualidade é uma oportunidade de desmistificar crenças e tabus que atrapalham o autoconhecimento e desenvolvimento de relações saudáveis. Acompanhe meu trabalho em @eumulherciclica lá eu ajudo outras mulheres a se reconectarem com seus corpos através do conhecimento do ciclo menstrual.




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