Quão preciso é o episódio de Modern Love sobre namoro com transtorno bipolar?

Por Patrícia Atanes de Jesus Bernardinelli - CRP 06/37052


*Atenção, o texto contem spoilers do 3º episódio de Modern Love.

Se há uma coisa que a série Modern Love baseada na coluna homônima do New York Times reafirma, é que os relacionamentos são complexos. E, como a serie apresenta habilmente, o namoro pode ser ainda mais complicado se você tem problemas de saúde mental. No terceiro episódio da série, “Take Me As I Am, Whoever I Am”, Lexi (Anne Hathaway) retrata uma mulher que está combatendo os sintomas do transtorno bipolar enquanto navega entre o contexto do namoro e da vida profissional.


Na série, vemos a personagem Lexi ser charmosa, “brilhante”, produtiva e cativante. “Conheci um homem no corredor de pêssegos [do supermercado]”, ela canta. “Não há uma nuvem no céu.” Também a vemos alternar em episódios depressivos, com dias em que ela não consegue sair da cama. Ela vive lutando para encontrar o amor e, finalmente quando pode ter encontrado, afasta um romance com o personagem Jeff interpretado por Gary Carr.


A serie é baseada em um ensaio pessoal, e a adaptação para a tela faz um bom trabalho ao detalhar os meandros dos relacionamentos e distúrbios de saúde mental, porém precisamos atentar, ao assistir a série, que se trata da história de uma pessoa, e que muitas pessoas têm relacionamentos estáveis ​​e bem-sucedidos, apesar de um diagnóstico bipolar.


Alguns estudiosos da saúde mental falam que existem diferentes tipos do transtorno bipolar, incluindo o bipolar I , que envolve mudanças rápidas de humor de mania para depressão, e o bipolar II, que envolve uma elevação mais leve do humor que alternará com períodos de depressão o que provavelmente a personagem de Hathaway teria sido diagnostica. Há também transtorno ciclotímico , que envolve ter esses sintomas por breves períodos.


É importante lembrar que o transtorno bipolar geralmente é tratável. Se as pessoas tomam medicação, que geralmente inclui lítio e talvez antidepressivos, e cuidam bem de si mesmas, gerenciando seu estresse, dieta, fazendo exercícios, dormindo regularmente, elas podem viver uma vida bastante livre de sintomas e seus relacionamentos seguem muito bem.


Eu realmente concordo com esses profissionais e estudiosos, porém não podemos deixar de acrescenta que, também a bipolaridade pode prejudicar os relacionamentos. Ser bipolar, por definição, afeta as interações com os outros de maneira significativa. A natureza dos sintomas pode fazer com que as pessoas sejam mais retraídas e menos interessadas em um ponto, e mais maníacas em outro... às vezes levando à irritabilidade, raiva e comportamento impulsivo.


Com isso, podemos dizer que se alguém que tem transtorno bipolar está em um relacionamento com a pessoa certa, pode ser uma coisa muito boa para seu equilíbrio e bem estar.


Um dos maiores riscos para quem tem essa condição é passar por muito estresse, o que pode interferir no funcionamento correto das medicações e, ter um parceiro para fazer o checkin durante esses períodos pode ser útil, além de que eles podem detectar mudanças sutis de humor antes que seu parceiro com a condição o faça. Porém... o caos dos relacionamentos pode desestabilizar e significativamente, as pessoas com transtorno bipolar.


O 3º episódio de Modern Love finalmente mostra como a condição do personagem de Hathaway afeta negativamente sua vida amorosa e profissional. A lição que ela aprende é que ela precisa ser mais aberta sobre sua condição. Em uma cena final, ela é vista incluindo seu diagnóstico em seu perfil para um site de namoro online.


No entanto, divulgar a condição antecipadamente não é certo para todos. Existe nuances uma vez que as pessoas são diferentes, para algumas o mais confortável e já informar sua condição desde o inicio, outras, precisam fazer a revelação no momento certo ou confortável, além da maneira que entendem ou sentem ser certa para elas.


Quando se tem problemas com saúde, em especial a mental é importante informarmos aos nossos parceiros, mas de forma personalizada. Em meus anos de atuação, já presenciei comunicados precoces sendo encorajados muito antes que as pessoas estivessem prontas, e isso teve consequências bem negativas para si e para os seus parceiros.


Em última análise, quero dizer para aqueles com transtorno bipolar que não devem se desencorajar com o retrato de Lexi. Só porque você tem transtorno bipolar não significa que você não pode ter relacionamentos satisfatórios, estáveis, amorosos e ótimos.


Muitas pessoas pensam que seria impossível, mas isso não é verdade. Existem certos preconceitos e distorções que são reforçados em representações cinematográficas como a série e também com base em experiências pessoais, muito distintas e diferentes entre si além de bastante individuais. Essa não é a realidade.


Patrícia Atanes de Jesus Bernardinelli é escritora e Psicóloga Junguiana com Especialização em Terapia Sistêmica Familiar e Avaliação Psicológica, além de Psicologia Jurídica e Criminal Profiling – Psicologia Investigativa.

Atende Crianças, Adolescentes e Casais em consultório particular em São Bernardo do Campo/SP.

Atua em casos da vara da família ou da infância como perita ou auxiliar técnica de acordo com a solicitação do fórum ou de uma das partes.

Seus interesses estão voltados para relacionamentos, transtornos e síndromes diversas que atingem os adolescentes (incluindo depressão, suicídio).

Sua paixão está no entendimento do funcionamento da Psique e seus simbolismos além da busca dos conceitos e preceitos psicológicos na literatura e cinema.


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