O Começo da Vida – Episódio 2: Tornar-se Pai, Tornar-se Mãe

Updated: Oct 1, 2018

por psicóloga Ivana Aquino Dias, CRP 07/12377


Primeiramente exibido em forma de filme, a Netflix traz o documentário “O Começo da Vida” em formato de série. Filmado em oito países (Brasil, EUA, Canadá, Itália, China, Argentina, Índia e Quênia), foram mais de 170 entrevistas, que ilustram e propiciam reflexões acerca da importância dos primeiros mil dias de uma criança e do quanto este período, crucial no desenvolvimento do indivíduo, vai repercutir ao longo de sua vida.


O episódio “Tornar-se Pai, Tornar-se Mãe” traz importantes questionamentos sobre como nossa sociedade deseja, vive e interpreta a maternidade e a paternidade. O que significa colocar um filho no mundo? O que é preciso para ser um bom pai e uma boa mãe? Esse filho vem com o objetivo de preencher alguma lacuna? Alcançar objetivos que você mesmo não conseguiu alcançar? Você está disposto a criar as melhores condições para que esta criança desenvolva da melhor maneira todo seu potencial? Estas são algumas das indagações que o episódio traz para reflexão e que nos fazem pensar profundamente sobre o tema, desde antes da concepção.


Se pensarmos enquanto sociedade, vivemos numa cultura extremamente masculina, que, em geral, tem dificuldade de respeitar e entender uma vivência essencialmente feminina como o “gestar”. Uma frase impactante é dita por uma das entrevistadas no início do episódio: “A vida explode completamente quando se tem um filho”; e isso vem desde a concepção. A mulher precisa estar disponível para o processo de gestar, conectar-se com sua essência, com seu corpo em transformação, respeitar o tempo das coisas e viver intensamente este período. No entanto, a sociedade frenética muitas vezes não entende suas necessidades. Há quem enxergue a gestação como doença; outros que vão para outro extremo, o de considerar que a gestação não exige da mulher esforço algum, cobrando dela o mesmo envolvimento intelectual e de força de trabalho de antes. Gerar um novo ser exige, sim, muito da mulher, tanto fisicamente quanto emocionalmente. O quanto a sociedade respeita essa realidade? Antes disso, o quanto essa mulher se preparou para tais mudanças?


Nos meus atendimentos psicológicos em pós-parto ou nos meses seguintes, muitas vezes me deparo com mulheres que não imaginavam o tamanho das mudanças que ocorreriam com a chegada de um bebê. Mesmo quando a mulher se imagina e supostamente se prepara para tal, há coisas que só se consegue dimensionar vivendo, e a maternidade é uma delas. O impacto que isso pode ter na vida dessa mulher depende também de como ela está sendo amparada nesse momento e de qual é sua rede de apoio para maternar. Já atendi mulheres com bebês recém-nascidos com problemas de saúde que recebiam ligações de trabalho incessantemente. Qual a disponibilidade dessa mulher de estar ali por inteiro, vivendo a maternidade, que por si só já gera uma grande demanda emocional, e nesse caso potencializada por um problema de saúde com o bebê?


É a partir da interação profunda com a mãe que este bebê começa a se formar emocionalmente. Ele não quer saber se os pais são importantes, se têm dinheiro ou um cargo de presidente numa empresa; ele deseja e precisa de PRESENÇA. É através dela que se dá a construção do vínculo, que se estenderá para o restante das relações ao longo da vida.


O tempo do homem de se apropriar da parentalidade é diferente do da mulher, pela própria experiência corporal mesmo. Além disso, os primeiros meses são de grande intensidade para mãe e bebê. Após esse primeiro momento, é papel do pai (ou de quem exerça essa função) mostrar ao bebê que existe um mundo além da mãe.


Quando nasce um filho, as prioridades mudam, mesmo que você não esteja preparada para essa mudança. A transformação que se dá com a mulher pode ser de tal profundidade que a leve a uma depressão pós-parto. O chamado “baby blues” é um processo de luto benigno e esperado e não é considerado uma depressão. É um período de elaboração desses novos papéis que a mulher assume: de mãe de um filho que depende totalmente dela, ou de mãe de dois ou mais filhos, ou de mulher que deixa de lado sua carreira, ou de esposa que precisa dividir a atenção entre marido e filhos, ou de mãe solteira que não tem com quem contar etc. Enfim, a mulher precisa deixar de ser quem era para tornar-se uma nova pessoa. Aquela que era não existe mais. E isso pode assustar; a assimilação desse processo pode levar tempo e as dificuldades que ela encontra em conciliar tudo isso é que pode gerar uma depressão.


Depressão pós-parto é grave e precisa ser tratada. Muitas mulheres resistem a pedir ajuda por vergonha, pois nossa sociedade ainda retrata a maternidade como mar de rosas e parece que estar feliz é uma obrigação. Muitas famílias demoram a perceber que a mulher está com dificuldades, porque muitas são eficientes em cuidar do bebê, sem demonstrar suas fragilidades, por medo do julgamento. A mulher precisa de apoio, ajuda e acolhimento, não de julgamento. Felizmente, nos últimos tempos tem se discutido mais sobre o lado obscuro da maternidade, antes escondido. A maternidade pode ser maravilhosa, mas também pode ser muito difícil. E precisamos falar mais sobre este lado difícil, desmistificar a ideia de perfeição, mostrar para a mulher que tudo bem ela ter dificuldades e pedir ajuda.


O documentário também fala sobre a psicose puerperal, um quadro gravíssimo em que a mulher perde totalmente a capacidade de cuidar de si e do bebê e, por isso, pode ser mais facilmente percebida pelos familiares.


Se você é familiar de uma mulher que está grávida ou em pós-parto, acolha, escute, ofereça ajuda sem julgar. Se perceber que ela está em dificuldades, encoraje-a a procurar auxílio profissional. Se você é a mulher em questão, não sinta vergonha de pedir ajuda. O ser humano é um ser que vive e se desenvolve em grupos; você não é obrigada a dar conta de tudo sozinha! Procure espaços em que possa dividir suas vivências e angústias, cerque-se de pessoas que possam ser apoio, que possam simbolicamente “te dar a mão” para atravessar estes meses de neblina que acompanham o pós-parto, para que lá adiante você possa viver os belos dias de sol que a maternidade traz, apesar de qualquer dificuldade.


Ivana Aquino Dias é psicóloga, CRP 07/12377. Formada em Psicologia pela PUCRS, Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital Moinhos de Vento, Formação em Terapia Cognitivo Comportamental em Saúde pelo ITEPSA,  pesquisadora do comportamento alimentar na Faculdade de Medicina da UFRGS,  pós graduanda em Terapia Cognitivo Comportamental.

Experiência em atendimentos na gestação e no pós-parto, de crianças com dificuldades alimentares (seletividade, anorexia, etc), dificuldades de desfralde, doenças crônicas, apoio psicológico em dietas restritivas por alergia alimentar, diabetes e doença celíaca e avaliação psicológica.

Acompanhe seu trabalho em: https://www.facebook.com/Ivana-Aquino-Psic%C3%B3loga-120674108390603/

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Blog escrito por psicólogas e psicólogos de todo Brasil.

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