Inacreditável, o poder da escuta empática em meio a uma história dolorosa de estupro.

por Patrícia Atanes de Jesus – CRP 06/37052


A princípio, a minissérie Inacreditável pareceria uma fonte improvável de mensagens edificantes sobre a conexão e o entendimento humano. Baseada em uma história verdadeira relatada em um artigo investigativo vencedor do prêmio Pulitzer de 2016, intitulado “Uma História Inacreditável de Estupro”, a série criada por Susannah Grant traz duas narrativas durante seus oito episódios. Uma delas e que prova em nós sentimentos de familiaridade e nos enfurece ao mesmo tempo, é sobre o que acontece quando pessoas que investigam um estupro fazem quase tudo errado. Neste caso, não os elementos processuais, embora eles também estraguem tudo, mas os elementos humanos são os maiores responsáveis.


Marie Adler (Kaitlyn Dever), uma jovem de 18 anos que passou por alguns lares adotivos durante sua infância e início de adolescência, atualmente trabalhadora de uma loja de varejo de baixo custo, numa noite de verão em 2008 acordou e encontrou um homem em seu apartamento em Lynnwood, Washington, em pé sobre ela com uma faca. Ele a amarrou, a estuprou e tirou fotos dela antes de sair. Na sequência de cenas, Marie aparece encolhida em um edredom, claramente em choque, obviamente traumatizada por ter sobrevivido a pior e mais brutal experiência de sua vida.  Ela ouve passos no corredor do lado de fora. “Lá vem eles”, diz uma de suas ex-mãe adotiva, Judith (Elizabeth Marvel). “A ajuda está vindo”.


Neste momento recomeça o drama de Marie, ela é mais uma vez vitimizada quando os dois detetives investigadores de meia-idade chegam e fazem com que ela conte repetidas vezes o ocorrido e cada vez com mais “agressividade” e mais interrogações. Essa agressão não para por aí, depois do estupro e de já ter repetido várias vezes a história para os detetives do caso, Marie é encaminhada ao hospital, onde novamente é forçada a repetir várias e várias vezes o estupro para uma equipe de profissionais de saúde que a tratam como um objeto. Eles seguem as normas e se focam em tratar o corpo dela, mas ignoram totalmente seu trauma emocional. Na saída do hospital, uma enfermeira corre para entregar uma receita médica para a pílula do dia seguinte e recita uma lista de razões ou sintomas para retornar ao hospital. No final da lista consta “ideação suicida”, colocada ali com a mesma (in)significância de um sangramento excessivo ou urticária.


Os detetives responsáveis pelo caso, juntamente com seus ex-pais adotivos, começam a duvidar de sua versão do crime. Isso se deve em parte a suas emoções confusas, que sabemos fazem parte das respostas psíquicas ou mecanismos de defesa mediante ao trauma, as memórias podem se tornar confusas para suprimir a intensidade da dor que a violência causou, além da pressão psicológica que vinha sofrendo desde o momento da violência. Eles finalmente convencem Marie a dizer que ela inventou o estupro e então, alguns dias depois, ela mudou seu depoimento e disse que havia inventado o incidente.


Como telespectadores, sabemos que Marie está dizendo a verdade e ficamos com o coração apertado ao ver como a polícia, sua chefe, os assistentes sociais, suas famílias (adotivas) e até seus amigos se voltam contra ela. Ninguém, absolutamente ninguém presta atenção ao estado emocional desta jovem.  Ela perde sua casa subsidiada, seu emprego e sua posição na sociedade. É nesse ponto que ela verbaliza a terapeuta designada pelo tribunal que a única maneira de se proteger é nunca confiar em outro ser humano.


Em paralelo, temos uma outra narrativa que raramente vemos ou ouvimos falar, aquela que é ainda mais comovente pelo quão estranho parece. Esta ocorre vários anos depois, enquanto dois detetives tentam resolver uma série de estupros que vêm ocorrendo em várias cidades do Colorado. Os detalhes do MO (modus Operandi) dos crimes correspondem ao caso de Marie e, de fato o responsável é o mesmo homem, mas há uma grande diferença nas duas narrativas: no Colorado, a investigação é liderada por duas detetives. Em vez de informar ou pressionar as vítimas, elas ouvem e acolhem, se solidarizam. O contraste com o desenrolar da investigação do caso de Marie é gritante.


A detetive Karen Duvall do Colorado (Merritt Wever) é um modelo de escuta ativa. Quando ela entrevista pela primeira vez a vítima de estupro, Amber Stevenson (Danielle Macdonald) à leva para um espaço privado, depois de se certificar de que está confortável, diz a ela repetidas vezes que o que quer que ela tenha vontade de fazer ou dizer naquele momento está absolutamente bem. A detetive é gentil e profissional, cita pesquisas para que Stevenson saiba por que ela precisa ouvi-la recontar seu estupro algumas vezes. Duvall ouve em silêncio, sempre com os olhos voltados para o rosto de Amber.  Ela assegura à vítima que as enfermeiras prestes a examiná-la são bem treinadas e sensíveis e ajuda os oficiais a preservar evidências valiosas.


A colega de Duvall, Grace Rasmussen (Toni Collette) é mais velha, mais experiente. Ela reconhece que lidar com o trauma todos os dias é difícil, brincando que o lema da polícia poderia ser facilmente: "Servir, proteger e preservar emocionalmente seus parceiros". No entanto, quando as duas mulheres estão em campo juntas é uma lição de como tratar ou falar sobre emoções e relacionamentos. 


Inacreditável traz uma mudança no paradigma do trabalho policial solitário, com os detetives reunidos como equipe para encontrar o estuprador e como o resultado desse trabalho os leva ao caso encerrado de Marie Adler, para o espanto do detetive de Washington, Robert Parker (Eric Lange).


Ele procura Marie, diz a ela que seu estuprador foi pego e lhe entrega um cheque de US$ 500 (a multa que ela pagou pelo “depoimento falso”). Marie consegue um advogado, que luta por um acordo melhor de retratação para ela, o suficiente para que deixe a cidade e possa começar uma nova vida em outro lugar. Ao sair da cidade, Marie para na delegacia para confrontar Parker. Ela diz a ele que recebeu um acordo, mas acrescenta: “Você sabe o que eu nunca recebi de alguém? Uma desculpa."


Na cena final da série, Marie fala ao telefone com Duvall, a quem ela nunca conheceu pessoalmente. Duvall após dizer que sabe quem ela é, deixa Marie falar sem interromper: “Passei a vida inteira tentando acreditar que as pessoas eram basicamente boas, mesmo quando eu sabia que não eram. Então aconteceu o estupro, e ficou mais difícil para mim acreditar que havia algo de bom no mundo. E essa foi a parte mais difícil de tudo isso, acordar um dia sem esperança. Mas então, do nada, ouvi falar de duas pessoas em outra parte do país que estavam cuidando de mim e mais do que qualquer coisa, ouvi como vocês mudaram completamente as coisas. Eu agora acordo e consigo imaginar coisas boas acontecendo. Obrigada". "De nada", responde Duvall, encerrando uma história horrível de estupro e vítima. E deixando no ar uma reflexão sobre o poder da conexão humana, gratidão e compaixão.


Inacreditável não é uma série sobre se Marie estava dizendo a verdade. É sobre quem consegue ouvir sua história, em quem é permitido acreditar. É sobre a dinâmica do poder que sustenta o sistema de justiça criminal e a sociedade em geral. "Estou com problemas?", Marie pergunta à polícia que faz suas primeiras declarações. A resposta para ela, e tantas outras como ela, seria um retumbante sim.



Patrícia Atanes de Jesus é psicóloga junguiana, CRP 06/37052 com Especialização em Terapia Sistêmica Familiar e Avaliação Psicológica, além de Psicologia Jurídica. Atende Crianças, Adolescentes e Casais em consultório particular em São Bernardo do Campo/SP. Seus interesses estão voltados para relacionamentos, transtornos e síndromes diversas que atingem os adolescentes (incluindo depressão, suicídio). Sua paixão está no entendimento do funcionamento da Psique e seus simbolismos. Acompanhe seu trabalho em:

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Blog escrito por psicólogas e psicólogos de todo Brasil.

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