Amor e Psicopatia

por Samantha Alves - CRP 04/54059


Quem nunca ouviu falar de um psicopata? Alguns termos da psicologia são utilizados por pessoas leigas para descrever ou até mesmo ofender os outros: psicopata, narcisista, bipolar e por aí. Podemos ter contato com essas nomenclaturas numa conversa informal do cotidiano ou quando estamos assistindo a personagens de produções do cinema e da televisão. Talvez você já tenha assistido a algum filme, analisou um personagem e pensou: “com certeza esse cara é psicopata”. Me arrisco a dizer que esse personagem em questão era violento, frio, calculista, assassino. Geralmente é assim. Pois bem. Eis que uma série se propõe a fazer diferente e coloca diante de nós uma psicopata que ganha a nossa simpatia e nos conquista. Vamos falar sobre Ko Moon-Young.

A série sul-coreana “Tudo bem não ser normal” apresenta um pouco da realidade de alguns transtornos mentais. Mostra o quanto é desafiador “não ser normal” ao mesmo tempo em que nos inspira a pensar que é possível ficar “tudo bem”. Os transtornos que ganharam mais destaque na produção foram o transtorno dissociativo de identidade, o transtorno do espectro autista, o transtorno bipolar, o transtorno de estresse pós-traumático e o transtorno de personalidade antissocial, mais conhecido como psicopatia.

Ao contrário do que se espera, o psicopata da série não é o cara violento, frio, calculista e assassino. É uma escritora de livros infantis que convive com crianças e que se apaixona por Moon Gang Tae, o rapaz mais bom moço de todos. Mas não se engane. Ko Moon-Young, de alguma forma, sofre com seu transtorno mental e faz muita gente sofrer também.

Já na infância ela tinha comportamentos que não eram comuns para uma menina. Ela não demonstrava emoções, não tinha sensibilidade nem empatia e ainda maltratava animais. Há uma cena marcante em que ela mata várias borboletas. O período que conviveu com mãe não foi fácil, a mãe também tinha comportamentos extravagantes e agressivos. Um único fator não causa um transtorno mental, então não iremos entender que Ko Moon-Young era problemática por causa da mãe.

Na vida adulta Ko Moon-Young usava os contos que escrevia para expressar pensamentos sombrios e opiniões pessimistas sobre o mundo. Tinha dificuldade de se adequar às regras, era impulsiva, se irritava facilmente e reagia com agressividade. Em outra cena marcante ela agride Moon Gang Tae na primeira vez em que se encontram na vida adulta! Outra característica de pessoas com o mesmo transtorno de personalidade de Moon-Young é o descaso com a própria segurança e a de outras pessoas. Mais de uma vez durante a série ela dirige de forma perigosa colocando a sua vida e dos outros em risco. Tudo isso sem remorso algum. Zero arrependimento. Essa forma de viver que Ko Moon-Young tinha causava muitos problemas em sua vida pessoal e profissional. Na carreira de escritora ela tinha o seu editor que consertava os erros dela. Mas na vida pessoal ela não tinha alguém como apoio e, por isso, passou boa parte da vida sozinha. Afinal, parece impossível conviver com alguém assim, não é mesmo?

Realmente não é uma missão fácil. Mas é aí que a série consegue trazer uma beleza em tudo isso. Mesmo sendo uma pessoa tão difícil, Ko Moon-Young desperta nas pessoas um desejo de ajudá-la, uma vontade de estar com ela e cuidar das necessidades dela. Assim, ela forma laços de amizade e até mesmo de família com pessoas que não tinham qualquer obrigação com ela. Haviam pessoas dispostas a fazer parte da vida dela. Isso porque ela era intensa também nas emoções boas que sentia. A série mostra uma psicopata que amava um homem e que queria ser irmã de um autista. A intensidade com que ela viveu esses sentimentos pelos dois irmãos possibilitou que um deles rompesse com uma longa trajetória em que abria mão do que queria para atender às pessoas, e ao outro que tivesse um lugar em que desfrutasse de sua independência e de seu potencial criativo. A história desses dois irmãos é contagiante e assunto para outro texto...

Podemos então pensar que conviver com alguém difícil pode nos trazer grande sofrimento. Neste caso, precisamos identificar do que damos conta, o que estamos dispostos a suportar. Se decidirmos que vale a pena, que possamos encontrar um fio condutor para essa jornada. Para os que escolheram viver com Ko Moon-Young eu diria que esse fio condutor foi o amor.


Samantha Alves é psicóloga clínica e terapeuta de casal. Atende adolescentes, adultos e casais. É mestranda em cognição e comportamento pela UFMG, tem formação em: psicopatologia, terapia de casais e terapia cognitivo-comportamental. Compartilha o seu conhecimento sobre relacionamentos amorosos e saúde mental no Instagram: @samantha.psi

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