A Psicologia entrando em cena: A Psicoterapia é o remédio preferido em "Lúcifer"

Em tempos de olhar para nosso interior, até o “diabo” pode se preocupar com a saúde mental.

por Patrícia Atanes - CRP 06/37052


Um personagem que regride às suas falhas é tão intrigante quanto aquele que supera seus demônios interiores. Mas e se esse personagem for, de fato, o rei dos demônios? Lúcifer Morningstar precisa resolver alguns defeitos de caráter por conta própria e, ele faz isso com a ajuda de seus amigos humanos, em especial, a psicoterapeuta Dra. Linda Martin.


Tudo começa com a introdução do episódio piloto da série “Lúcifer”. “No início, o anjo Lúcifer foi expulso do Céu e condenado a governar o Inferno por toda a eternidade. Até que ele decidiu tirar férias.”


Na Los Angeles de 2015 é que tudo acontece, onde o próprio Diabo dirige uma boate, a Lux, enquanto trabalha como consultor para o Departamento de Polícia. A paixão de Lúcifer por resolver assassinatos é o primeiro vislumbre que temos das complexidades de sua psique. O diabo não é mau, na realidade, ele pune o mal, antes no Inferno e agora na Terra.


Lúcifer trabalha com a detetive de homicídios, Chloe Decker, que atua como uma moldura para um problema pessoal que Lúcifer está resolvendo com a Dra. Linda. Durante a maior parte da trama ele parece não fazer muito progresso, pois interpreta incorretamente muitos dos conselhos de Linda.


Em vez de desprezar a terapia, os esforços lentos de Lúcifer fornecem uma expectativa realista do processo de autodescoberta e autodesenvolvimento. Melhorar a saúde mental é um trabalho exaustivo e confuso, mas extremamente necessário.


Os pacientes em terapia se apresentam com muitos disfarces: viciados, portadores de transtornos diversos, ansiedade, depressão, confusões mentais, dissociações, pais, filhos etc. No entanto, a televisão e o cinema, ao tratar o assunto, tendem a se concentrar em pacientes de psicoterapia com distúrbios mentais diagnosticados ou história de trauma.


Uma característica excessivamente proeminente de pacientes com distúrbios mentais ​​pode levar ao estereótipo de que alguém deve ser danificado para buscar psicoterapia. “Lúcifer” destrói rapidamente essa noção. Retratar a psicoterapia como uma forma de “remédio” e desestigmatiza a doença mental. A psicoterapia vai muito além de simplesmente tratar, ela é para auxiliar, orientar, iluminar os caminhos escuros do encontro consigo mesmo.


Lúcifer carismático, charmoso e bem-humorado vive uma vida movida a drogas e sexo em sua cobertura acima da boate Lux. Um homem que é milionário além da nossa imaginação terrena, um rei no Inferno e um anjo no Céu certamente não é o garoto-propaganda de alguém que precise fazer psicoterapia. Mas para Lúcifer, assim como para muitos que fazem terapia, não existe um motivo singular para que se precise buscar ajuda profissional para superar.


Na verdade, Lúcifer deseja simplesmente ser a melhor versão de si mesmo, aprender como ser um amigo e colega mais solidário e compreender seu próprio senso de autopercepção. Resumindo, Lúcifer frequenta psicoterapia para melhorar e nutrir sua saúde mental.


A demônio Mazikeen, amiga e guarda-costas de Lúcifer, também passa um tempo com a Dra. Linda. Os demônios não têm emoções e não se envolvem em nenhuma reflexão introspectiva, pelo menos não no Inferno. Mas na Terra, Mazikeen descobre e entra em contato com sentimentos, em especial, sente a solidão, pela primeira vez.


Ela é a protetora de Lúcifer e Trixie, a filha de Chloe, mas sente que não há ninguém para lhe oferecer conforto. Uma vida de solidão como demônio torna difícil para Mazikeen dar espaço para às pessoas em sua nova vida. O propósito da psicoterapia, para ela, é se abrir e permitir ser amada e cuidada por outra pessoa.


Embora “Lúcifer” nos leve a acreditar que o enredo seja as desventuras da dupla de detetives Lúcifer-Chloe, a série muda as perspectivas para se concentrar em torno da saúde mental de uma forma que não sabota a natureza cômica do drama sobrenatural.


Cada personagem vai até o sofá do consultório da Dra. Linda como um rito de passagem dentro desta série que incorpora de maneira tão casual mensagens de saúde mental em suas tramas. Ninguém é muito bom, muito mau, muito completo ou muito “quebrado” para colher os benefícios da psicoterapia, nem mesmo a própria Dra. Linda Martin.


Em vez de retratar o psicoterapeuta como uma autoridade e imune de todas as coisas psicológicas, a série faz questão de enfatizar que a Dra. Linda também precisa de apoio. Linda se torna amiga de Mazikeen, Lúcifer e Amenadiel, irmão de Lúcifer, e é a primeira humana que aprende sobre suas naturezas celestiais.

Depois de ver a verdadeira forma do diabo Lucifer, uma apavorada Dra. Linda inicialmente corta todos os laços, tanto pessoais quanto profissionais, com a “familia” divina.


Ela se sente sozinha em um mundo que de repente é muito mais assustador e mais perigoso do que sugeria seu antigo estado de abençoada ignorância. Seus amigos, que já foram confidentes e fontes de alegria, revelaram-se entidades terrivelmente poderosas. É preciso o incentivo e a gentileza de Mazikeen, a melhor torturadora do Inferno, para tirar a Dra. Linda de seu estado de choque petrificado. Alguém que supostamente personifica o mal puro, ironicamente, lembra a psicoterapeuta que todos merecem uma chance de se provar, apesar do que sua reputação diz sobre eles.


A lição de Mazikeen se relaciona a outro princípio de autodesenvolvimento que é predominante no enredo da série, aprender a ser você mesmo. Lúcifer, Mazikeen e até Eva, lutam mais para aceitar quem eles são, em vez de agir de acordo com os desejos e expectativas dos outros.


Lúcifer oscila entre sucumbir totalmente à sua natureza diabólica, que a humanidade espera, e abraçar seu eu angelical, que Chloe e Amenadiel encorajam. A demoníaca Mazikeen é temida por quase todos, levando-a a acreditar que ela não pode ser nada além de uma assassina. Eva constantemente se transforma em uma pessoa que ela acredita que seu parceiro, seja Adão ou Lúcifer, vai gostar mais. Ao criar alguém que eles acreditam que os outros desejam, Lúcifer, Mazikeen e Eva se perdem completamente.


Pode parecer desanimador, mas ao se depararem com seus pontos mais fracos, os personagens de “Lúcifer” descobrem individualmente que determinam seus próprios destinos. O autodesenvolvimento ao longo das temporadas leva cada personagem a aceitar, de uma maneira única, que Deus e o destino não podem ser responsabilizados pelo bem nem pelo mal. Cada um cria seu próprio destino e é responsável por suas escolhas.


O consultório da Dra. Linda é o sol em torno do qual cada personagem gira, e as sessões de psicoterapia podem ser divertidas e casuais ou profundamente revolucionárias. Os pacientes podem vir com problemas e diagnósticos específicos, ou podem simplesmente precisar de um bom ouvinte.


Independentemente da natureza da sessão ou do paciente, nenhum personagem esconde fazer psicoterapia de outras pessoas na trama. Ao desestigmatizar a saúde mental de seus personagens, “Lúcifer” encoraja os espectadores a reconsiderar seus próprios preconceitos sobre a terapia e a refletir sobre seu autodesenvolvimento e autocrescimento pessoal.


Patrícia Atanes de Jesus Bernardinelli é Psicóloga Junguiana com Especialização em Terapia Sistêmica Familiar e Avaliação Psicológica, além de Psicologia Jurídica.

Atualmente pós graduanda em Criminal Profiling – Psicologia Investigativa.

Atende Crianças, Adolescentes e Casais em consultório particular em São Bernardo do Campo/SP.

Atua em casos da vara da família ou da infância como perita ou auxiliar técnica de acordo com a solicitação do fórum ou de uma das partes.

Seus interesses estão voltados para relacionamentos, transtornos e síndromes diversas que atingem os adolescentes (incluindo depressão, suicídio).

Sua paixão está no entendimento do funcionamento da Psique e seus simbolismos além da busca dos conceitos e preceitos psicológicos na literatura e cinema.

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