The Midnight Gospel – A importância das conexões para dar luz a existência

por psicólogo Luiz Guedes, CRP07/30195


The Midnight Gospel é uma série animada da Netflix, criada pelo animador Pendleton Ward, o criador do aclamado sucesso Hora de Aventura e o podcaster Duncan Trussel, do podcast Duncan Trussel Family Hour. Ambos possuem um histórico de desenvolver material com um incrível fundo reflexivo e dando atenção a questões importantes como Sentido da Vida e como o ser humano se coloca perante o mundo a sua frente, uma união destes dois incríveis artistas não poderia sair algo menor que The Midnight Gospel, essa viagem para dentro de nós mesmos através de experiências psicodélicas e profundas.


A obra fala sobre Clancy, um jovem que possui um simulador de realidades, onde transfere sua consciência para diversos mundos lotados de seres inteligentes e, uma vez nestes mundos, ele escolhe alguém para entrevistar para o seu spacecast – um podcast espacial – e criar um laço experiencial. Clancy não passa por aventuras grandiosas como Finn em Hora de Aventura, ele passa por longas conversas com seres dos mais variados e através destes diálogos vai descobrindo um pouco mais sobre si mesmo, mas não tudo.


The Midnight Gospel nos deixa uma sensação incômoda de não saber tudo o que está acontecendo. Não sabemos como funciona o simulador de Clancy, não sabemos a razão dele morar sozinho onde mora ou porque precisa desesperadamente sair de si constantemente – embora tenhamos pistas claras – mas esta é só mais uma das reflexões que se pode tirar da série: A vida não nos dá todas as respostas e faz parte do nosso crescimento aceitar que não temos controle sobre tudo, mas temos sobre algumas coisas, como dito no diálogo abaixo entre Clancy e sua mãe, no último episódio, o mais emocionante e introspectivo.


- Porque se você está em um certo estado de pobreza, existem algumas coisas que você pode controlar. Outras talvez você não possa. Quando o tornado passa pelo seu bairro, sua casa é destruída, você não tem seguro e perde tudo, não tem como controlar. Mas certamente pode controlar como vai reagir a essa situação.


- Se ficar ciente da sua reatividade, pode reagir mais facilmente, em vez de repetir as reações.


- Porque a casa sempre vai ser derrubada.


- Faz parte a vida. A casa é derrubada.



- A casa sempre vai ser derrubada.


- Não tem como escapar.


- Mas se pensar em todas as vezes que suas casas foram derrubadas em sua vida, são na verdade momentos de transformação.


Lidar com o desconhecido nos abre uma margem enorme para conhecermos a nós mesmos sob uma perspectiva de quem está aberto a aprender o que de fato nos torna quem somos. Quando temos certezas cristalizadas não existe espaço para crescimento, ficamos engessados e capturados por tais certezas. Aqui, na incerteza, é possível se experimentar em diversos âmbitos e – ao ser afetado por essas experiências – se construir um pouco mais a cada momento de encontro com essas experiências.


Em uma pespectiva existencial, Clancy está em um caminho sem volta para dar à luz a sua própria existência ao construir uma essência nas suas experiências mais variadas, mostrando que o aprendizado sempre é possível em todos os nossos encontros. Clancy viaja para diferentes mundos, conversa com diferentes seres e SE TORNA DIFERENTES PESSOAS para poder interagir com tudo o que está a sua volta de maneira ideal. Ele não modifica quem é de fato, não existe uma interação falsa para se adequar a outras pessoas diferentes dele, pelo contrário, o que existe é uma entrega para que as experiências possam de fato serem aproveitadas, uma humildade em aprender com o mundo e também ensinar sobre si a ele, uma entrega real e de crescimento.


Clancy demonstra ter vários repertórios – pelo menos um para cada situação – e essa acaba sendo a grande diferença em sua fornada. O mesmo Clancy, porém agindo de acordo com o que a situação pede, sem se fixar em quem deveria ser por essência, o que acabaria fazendo com que ele perdesse toda a beleza de estar fazendo o que estava e do momento o qual estava inserido, outro tema recorrente durante os 8 episódios.


Estar no momento presente – o conhecido mindfulness – é um dos assuntos mais recorrentes da série, com algumas pitadas muito interessantes de Gestalt-Terapia e sua interação para sentir o corpo. Através do mindfulness a série explora como o momento presente é importante para que as experiências sejam aproveitadas da maneira adequada, em como estar ali – e somente ali – é a única maneira de se conectar de fato ao que se está vivendo. É sempre prazeroso? Não. É sempre dolorido? Não. Apenas é. Estar presente nas conexões nos faz desenvolve-las de maneira consciente, completa e rica, sem a perda de informações que podem ser transformadoras para dar à luz a nós mesmos.


The Midnight Gospel fala sobre como podemos nos reconhecer através das falas de outras pessoas, como podemos nos inspirar no mundo ao nosso redor, mas como somente nós mesmos podemos criar nossa essência para uma existência plena de si, com consciência de quem se é – ou de quem se quer ser – e sem uma fuga da própria realidade. As viagens para as simulações são inicialmente uma fuga para lidar com a vida completamente quebrada de Clancy, mas através do contato com diversas realidades – no caso aqui literalmente – é que ele pode refletir sobre a sua própria e ter incríveis insights acerca do sofrimento e do crescimento que ele pode proporcionar, desde que exista um enfrentamento a ele.


A obra aborda de maneira incrível o caráter mais íntimo do ser humano, a sua própria descoberta, bem como a relação das suas descobertas com o mundo a sua volta, seu poder para modifica-lo e como podemos fantasiar sobre soluções mágicas e frases bonitas, mas é somente na interação – tanto comigo quanto com o mundo – que a mudança real pode ser atingida, trazendo a consciência de quem sou, qual a minha busca de Sentido e, principalmente, como vou realizar este Sentido.


The Midnight Gospel vai na contramão de sucessos como Rick and Morty e usa a transcendência de si mesmo – a serviço da busca de Sentido – para contrapor com o niilismo constante que é visto e louvado cada vez mais em uma sociedade adoecida como a nossa. A jornada é de Clancy, mas poderia muito bem ser de cada um de nós, afinal de contas ele tem suas simulações para entrar em contato com diversos saberes, não poderia ele ser um saber a nossa disposição através de nossa própria simulação de realidades conhecida como Netflix? Fica a reflexão e o desejo de que quem adentre tal simulação possa ser afetado por ela, possa questionar a si mesmo e o seu papel ativo perante o mundo que se encontra. A viagem de Clancy pode ser um disparador para uma viagem pessoal e sem volta, uma viagem em busca de si mesmo. Boa sorte e leve uma garrafinha de água, é uma longa viagem.


Luiz Guedes é Psicólogo Clínico (CRP07/30195) Pós-Graduando em Logoterapia e Análise Existencial e Pós-Graduando em Psicologia Existencial Humanista e Fenomenológica


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