Riverdale - Como nossos corpos devem ser?

por Andrey da Silva Aires - CRP 07/33087


Riverdale, uma série focada no público adolescente, conta a história de pessoas que vivem em uma cidade e precisam navegar por uma série de mistérios, acontecimentos e romances. Se essa sinopse parece genérica, é porque no centro dela, existem tantas outras iguais (Nancy Drew, The Vampire Diaries, Teen Wolf, etc) que poderiam ser o tópico dessa discussão sobre como a televisão retrata o corpo do jovem.


Assim como a maioria das séries adolescentes, o elenco é composto por pessoas com corpos classicamente considerados bonitos, ou seja, homens musculosos de barriga definida e mulheres com cinturas finas e pernas torneadas. Ao teoricamente se tratar de adolescentes, esse tipo de entretenimento corre o risco de fazer jovens pensarem que esse é o modo como deveriam ser, e cá entre nós, pouquíssimas das pessoas são assim no colegial (se é que alguém foi).


Os últimos anos tem visto um aumento nos movimentos que visam a positividade corporal, pois estamos entendendo que esses padrões de beleza da televisão não são práticos na vida fora das telinhas. Mas por que, então, séries como Riverdale fazem tanto sucesso? Provavelmente por que nós gostamos de ver pessoas assim justamente por que sabemos que elas não estão em todos os lugares.


Quando pensamos nesse tipo de série, o que precisamos ter em mente é que a “realidade” da série é fictícia, e isso não se resume aos acontecimentos e aos personagens: como eles se parecem, como eles agem, suas possibilidades e suas aparências são tão fantasiosas quanto adolescentes que desvendam crimes com a polícia. No intanto, isso não nos impede de invejar o corpo das Cheryl Blossoms e Archie Andrews da vida, mas isso nos leva a pergunta: se temos tanta vontade de ser daquele jeito, por que mais pessoas não são?


Muitos de nós temos um entendimento de que para chegar no ponto de muitos atores de séries, precisamos nos exercitar, o que é verdade, mas quando pensamos em encaixar uma rotina de exercícios físicos em cima de nossa rotina de trabalho, estudo, cuidar da casa, dos filhos, etc, ficamos cansados só de imaginar e acabamos por nem tentar. Como profissional da saúde mental, apoio todos os movimentos sociais que buscam preservar a autoestima e o bem-estar das pessoas, mas na qualidade de profissional da saúde, não posso apoiar o sedentarismo.


Um dos problemas no qual as pessoas mais costumam esbarrar ao começarem a fazer exercícios é terem expectativas erradas sobre o que vão conseguir. Ter o corpo do Oliver Queen requer uma rotina de treino e alimentação que é impossível, ou pelo menos muito improvável, de ser alcançada levando em conta os demais afazeres do dia a dia. Mas tudo bem! Ele também não seria daquele jeito se precisasse ter a sua rotina, não podemos esquecer que faz parte do trabalho destes atores ser daquele jeito, é pra isso que eles são pagos.


Passada a barreira da expectativa, também podemos esbarrar no pensamento de que ao começarmos a nos exercitar, ter uma barriga trincada e uma porcentagem de gordura super baixa precisa ser o nosso objetivo. Ultimamente, pesquisas sobre o assunto têm indicado que seu índice de massa corporal (IMC) ou a porcentagem de gordura no corpo, não são bons indicadores de saúde, e propõe que o nível de atleticismo é um indicador melhor.


Pegando exemplos do mundo real, se pensarmos em pessoas que precisam estar saudáveis para seus trabalhos, ou seja, os atletas, vemos variados tipos de corpos, mas todos muito funcionais. Já sabemos que qualquer atividade física traz benefícios à saúde se comparado ao sedentarismo, por isso, o mais importante é escolhermos uma atividade e uma frequência com a qual podemos conviver, para que isso se torne um hábito funcional em nossa rotina.


Para resumir, imagine que existe uma linha onde de um lado temos um corpo “de série adolescente”, assim como todos os sacrifícios necessários para se chegar lá, e do outro lado temos pessoas sedentárias (que podem ter vários tipos de corpos diferentes). Encontrem um lugar neste contínuo que faça sentido pra vocês, e um modo de mexer seu corpo que te deixe feliz, e vá em frente.


Andrey da Silva Aires é psicólogo clínico de indivíduos, famílias, casais e pós graduando em psicologia e sexualidade. Também é criador da página @andrey.aires.psicologia no Instagram e Facebook onde desenvolve um trabalho focado em abordar conceitos da psicologia de um jeito simples, muitas vezes usando a cultura pop como paralelo para nossa vida.



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