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Por que a música pode nos salvar do Vecna?

por Giovanna de Boni Fraga - CRP 07/29470


Stranger Things é uma série de ficção científica estadunidense da Netflix, que conta a história de um grupo de amigos que se envolvem com uma série de eventos sobrenaturais na pacata cidade de Hawkins. Eles enfrentam diversas criaturas monstruosas, agências secretas do governo e se aventuram em dimensões paralelas enquanto lidam com as questões cotidianas de ser um pré-adolescente em crescimento nos anos oitenta. A quarta temporada chegou na Netflix em maio de dois mil e vinte e dois, depois de três anos de espera, por conta da pandemia da covid 19. Nesta nova temporada, os heróis de Hawkins tiveram de lutar contra um vilão diferente do que eles estavam acostumados, este tinha uma inteligência, uma consciência, um plano de dominação, que o fez se tornar mais potente e poderoso do que os outros vilões. Só que apesar da sua potência e poder, havia um ponto fraco impedindo ele de ser tão forte quanto suas vítimas, que nada mais é do que a força musical. Sim, uma simples canção era capaz de fazer com que as pessoas saíssem quase ilesas do ataque do vilão. Foi daí que surgiu nas redes sociais a história do: qual música te salvaria do Vecna? Só que afinal de contas, quem é este vilão, por que é tão poderoso, e que história é essa de ser salvo através de músicas? Vem comigo que eu vou explicar.


Para quem não sabe, todos os vilões de Stranger Things fazem parte do universo Dungeon e Dragons, o jogo de RPG, que os meninos tanto jogam desde o primeiro episódio. Cada vilão tem uma função na série: o Demogorgon, apenas obedece; o Devorador de Mentes, atua de maneira coletiva; e o Vecna, conecta suas presas para as controlar a qualquer instante que desejar. Ele faz isso, entrando na mente de vítimas que possuem culpa, perturbando-as, um tempo antes de realmente matá-las. E quando assume o controle, ele traumatiza as vítimas com visões de seu passado sombrio que trazem memórias ruins, até mesmo distorcendo os fatos para causar mais culpa nelas. Ou seja, ele faz jogos mentais de manipulação e culpa, até conseguir o controle de seus corpos, para então matá-las de fato. Só que Vecna não faz isso sem motivo, como era o Demogorgon que agia completamente por instinto, ele tem noção do que fazer e de onde chegar. Afinal, ele é uma criatura consciente e inteligente, com um passado intrigante, bem diferente do mundo invertido onde os monstros vivem; então, ele tem uma razão que o faz querer a dominação de Hawkins. Porém, como todo vilão, ele tem uma fraqueza, ou talvez, as suas presas tenham uma força que é a música; por causa dela, eles conseguem retomar a realidade, e voltar a consciência para os seus corpos, e assim, escapar das garras do Vecna.


Mas descobrir que a música era a solução, não foi uma tarefa fácil para Nancy e Robin, que tiveram de fazer uma visita ao hospital Pennhurst, onde Victor Creel, um homem que a cidade acredita ter assassinado a própria família, estava internado. Ele contou às garotas que, na realidade, Vecna foi responsável pelo crime, apesar de parecer difícil de acreditar, já que o tempo na conta delas não fechava com a aparição do monstro. Creel era um homem conhecido por ter uma linda família, em uma bela casa, onde todos eram felizes e tinham uma vida maravilhosa, porém, acontecimentos estranhos na sua casa e com sua família, fizeram com que ele fosse acusado pelo assassinato e preso no hospital pela eternidade. Nunca tiveram nenhuma prova dizendo que o homem era culpado ou inocente pelo incidente em sua casa, só que como ele fora o único sobrevivente, isso fez com que não restassem dúvidas de que ele era o causador da morte da sua família. Mas Nancy e Robin tiveram de ir até lá para investigar o que havia acontecido na casa de Victor Creel, com o próprio, para que pudesse contar a sua versão dos fatos. Além do mais, Vecna tinha um novo alvo, Max, então eles precisavam de uma maneira de salvá-la. Foi a partir da visita ao hospital, em uma sala enorme, com pessoas ouvindo músicas e a reação de Creel cantarolando para se acalmar depois de relembrar os acontecimentos, que elas tiveram a hipótese de que a música poderia ser a forma de escapar da maldição do Vecna.


Eles não tinham tanto tempo para testar a veracidade do fato de que a música era ou não realmente a solução, pois Max estava em perigo. Então, assim que descobriram a única possível forma de fazer a garota sobreviver ao vilão, colocaram a canção favorita da garota para tocar a todo vapor nos seus ouvidos antes de ele concluir o seu feito. Running up that hill de Kate Bush, a música favorita de Max funcionou para a grande surpresa da garota, dos amigos, e até mesmo de Vecna. A voz de Kate Bush cantando a canção preferida de Max, fez com que ela retomasse a consciência da sua presença, e isso fez com que abrisse um portal do mundo invertido para a cidade de Hawkins e assim pudesse fugir. No instante em que ela atravessou o portal, com a mente mais consciente do presente, foi que conseguiu retomar ao seu corpo. Foi um susto para todos, mas isso fez com que eles ficassem mais atentos e espertos para as próximas possíveis vítimas de Vecna. Max escutava a sua música favorita repetidas vezes, ao longo dos dias, em todos os lugares que ia, apesar de ter receio de enjoar, pois o que importava no momento era estar a salvo, e evitar que o vilão pudesse vir a acessá-la outra vez.


Na série, não é explicado com todas as letras o que acontece com o efeito de uma canção contra o vilão desta temporada. Porém, há diversos estudos que comprovam o benefício de uma bela melodia para uma pessoa na sua vida. Pesquisadores notaram que há alguma conexão entre o sistema auditivo e de recompensa, que faz com que as músicas sejam tão especiais, e capazes de despertar sentimentos e reviver lembranças. É como se um universo de significados, representações e percepções distintas, tornassem possível dizer que cada pessoa percebe e sente a música de modo diferente. E, também as canções são capazes de acionar diversas áreas do cérebro humano como o sistema auditivo do cérebro e o córtex pré-frontal medial, região ligada ao sistema de recompensa, área que comanda a motivação. Sem falar que a música ajuda a conter doenças neurodegenerativas, como o caso do Alzheimer e do Parkinson; facilita o aprendizado; auxilia contra a ansiedade e a depressão; melhora o foco; reduz o estresse; faz bem para a saúde emocional. Uma canção consegue envolver uma série de funções mentais que usamos em outros domínios, como é o caso da atenção, memória, planejamento motor e sincronização. Além de emitirem respostas afetivas, sensoriais, psicomotoras, neurológicas, psicossociais, que influenciam o nosso comportamento e também a interação com o mundo, seja interno ou externo.


A música também influencia no nosso ritmo cardíaco, isso quer dizer que as batidas do coração sincronizam-se ao ritmo da música. Quando estamos agitados e nervosos, a melhor forma de nos acalmar com música é através daquelas que são mais tranquilas, pois o nosso coração poderá desacelerar, o que nos faz acalmar. Também há estudos que dizem que as pessoas que ouvem músicas diariamente durante vinte a trinta minutos, tem a pressão mais baixa, comparadas com aquelas pessoas que não tem essa rotina. Apesar de ainda ter pouco estudo sobre a musicoterapia em tratamentos de diversos tipos de patologias, mesmo assim, nós conseguimos sentir os benefícios que uma bela canção ou a nossa favorita é capaz de fazer conosco quando a escutamos. Por exemplo: para reduzir a ansiedade, o estresse e também desacelerar uma música mais lenta é uma excelente opção; já para aumentar a disposição uma boa alternativa com certeza é uma que seja mais animada que instigue a agir, dançar e sair do lugar; para sentir alegria uma melodia que faça cantar ou dançar junto, pois ajudam a recordar de momentos importantes de entusiasmo e diversão; se for para reduzir o sentimento de solidão o melhor é ouvir aquilo que mais gosta de escutar; e se quiser auxílio para dormir uma música mais tranquila e relaxante pode ajudar.


Podemos ver que através desses estudos, mesmo os que não estão comprovados cientificamente, que a música tem sim uma influência importante no nosso comportamento, pensamento e sentimento. Isso se liga com a questão de Max conseguir escapar do Vecna a tempo por ter escutado a sua música favorita, e com isso, aberto um portal de volta a cidade de Hawkins. O que coincidentemente aconteceu com Victor Creel quando a sua família estava sendo atacada por uma criatura invisível, que ele acreditava se tratar do Vecna. Creel sobreviveu, pois essa criatura ficou fraca demais para atacá-lo, mas também porque escutou a voz vindo de uma melodia que costumava o deixar tranquilo, em paz. Então, com isso, conseguimos entender como foi que o Vecna não teve força suficiente, na verdade, Max e Creel tiveram a feliz coincidência de escutarem suas músicas favoritas no momento oportuno, evitando assim, que o pior acontecesse. Eu percebo pelo o que vi na série, li nas pesquisas, e pela minha experiência que uma música, mas ainda mais a nossa favorita, ela tem o poder de abrir um portal dentro da nossa própria mente que nos faz voltar para casa, ou seja, para a própria presença e consciência de quem somos.


Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Porta Adentro: relatos de tempo em casa; Coautora do aplicativo Amar é; Editora da equipe Psicologia em séries.

Através do autoconhecimento e da escrita terapêutica ajuda pessoas a se conectarem com a sua própria criatividade para a resolução de problemas.

Atende crianças, adolescentes e adultos de forma presencial na cidade de Osório - RS, e online para as demais cidades do Brasil.

Seus interesses estão voltados no desenvolvimento do autoconhecimento através da escrita terapêutica, na criatividade como resolução de problemas, e na saúde e bem-estar através da atenção plena.


Acompanhe seu trabalho em:

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https://www.instagram.com/giovanna.fraga/

e-mail: giovannafragapsico@gmail.com

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