Olivia Pope & a desconstrução do amor romântico em Scandal

por Tatiana Spalding Perez, CRP 07/26032


Scandal pode não ser a sua série favorita (confesso que também não é a minha). Mas como toda série de Shonda Rhymes ela tem um grude especial e provoca uma relação de afeto significativo entre nós e as personagens.


Comecei a assistir porque queria conhecer a tão famosa Olivia Pope, personagem que me instigava ao surgir em outras séries como referência (Orange is the new Black, por exemplo). Achei o primeiro episódio (e primeira temporada) decepcionante. Me pareceu que toda a vida de Olivia Pope não passava de um grande teatro em torno do "todo poderoso" Presidente dos Estados Unidos Fitzgerald Grant III.


(Aliás, aqui é preciso um parêntese. Como em qualquer outro filme/série em que o Presidente dos EUA seja personagem principal, Scandal cai na mesmice típica dos norte americanos e a idolatração a Fitz é algo absurdamente irritante. Uma dica para aguentar é perceber a ironia por trás das falas sobre sua grandiosidade. Na maioria das vezes, ele de fato não fez nada, apenas levou o crédito.)


Como já era de se esperar, Olivia ganhou minha atenção. Apesar de seguir sentindo que ela era constantemente manipulada pelo poder político, comecei a perceber o quanto lutava pela constante manutenção de reconhecimento de seu poder profissional em Washington, já adquirido, mas sempre ameaçado por ser mulher e negra. Aliás, cabe notar que todas as mulheres em Scandal são absurdamente intrigantes. E fortes.


Mas tem um momento especial de Scandal que quero elucidar aqui, e por isso o título desse texto. Ao longo das primeiras temporadas vemos um triângulo amoroso se desenrolar entre Olivia, Fitz e Jake.


Inclusive, para mim, quando Jake surgiu na série é que ela realmente ficou interessante. Não por ele. Mas pela mudança que ele provoca em Olivia. Com ele percebemos que Olivia não era absolutamente cega por Fitz e que existia vida pessoal e espaço para o amor na trama da personagem.


Mas, o que acontece é que, como podemos esperar de todo clichê romântico de séries, por algum tempo Olivia sofre com o fato de amar dois homens ao mesmo tempo. Afinal, ela se apaixona por Jake sem ter deixado de amar Fitz. E eis a grande virada de Scandal para mim: quando Olivia decide finalmente ser feliz e não escolher! Escolhe a si mesma. A cena merece ser vista:


Como vemos no vídeo, ao final do episódio 09 da temporada 4, Olivia, depois de diversos momentos “constrangedores” por “ter que” escolher entre Fitz ou Jake, se liberta e declara: "Eu quero Vermont com o Fitz. E eu também quero o sol com você (Jake). Eu não vou escolher. Eu escolho Olivia."


Como toda série de Shonda Rhymes, infelizmente, esse momento feliz e de extrema maturidade emocional dura pouco. Segundos depois, Olivia é sequestrada e viverá da pior forma a realidade de que nem Fitz nem Jake são o que realmente importa na sua vida. (Mas esse é conteúdo para outro texto.)


Deixe eu voltar para a afirmação de que o momento em que Olivia decide continuar se relacionando com Fitz E Jake foi o momento de maior maturidade emocional da série. A questão é: neste momento Olivia percebe que para respeitar a si mesma ela não DEVE escolher apenas um de seus amores. Ela ama tanto Fitz quanto Jake de formas diferentes. E as relações entre ela e Fitz, e ela e Jake são completamente diferentes. Como observamos ao longo das temporadas, há espaço para as duas relações na vida de Olivia, cada uma da sua forma, com seu tempo e seus espaços. Por que escolher?


Na lógica do amor romântico, entendemos as relações como salvadoras. Entendemos que as pessoas precisam encontrar suas metades e viverem felizes para sempre. Principalmente mulheres. Elas precisam encontrar seus príncipes salvadores, aceitarem todos os seus defeitos e viverem ao seu lado fielmente por toda eternidade, aguentando qualquer tipo de dor e sofrimento, afinal lhe devem a “libertação”. Em Scandal, as temporadas iniciais parecem inflingir à Olivia essa dor: qual príncipe escolherá, Fitz ou Jake? E eis que no episódio 9 da temporada 4 ela se liberta!


Na cena vemos Olivia libertar-se da lógica limitante do amor romântico e passar a assumir seu olhar de si mesma como inteiro. Se profissionalmente ela já fazia isso, agora na sua vida pessoal ela também se enxerga como uma. Um inteiro, que se relaciona com outros inteiros, de diferentes formas, mas todos como inteiros. O amor próprio acima de tudo. Tanto para Olivia, quanto para Fitz e Jake.


Tatiana Spalding Perez é psicóloga, CRP 07/26032 com Especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais. Atende em consultório particular em Porto Alegre/RS e na área acadêmica seus interesses estão voltados para poliamor, relações conjugais e relações de gênero. Acompanhe seu trabalho em:

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