BLINDSPOT - Uma nova vida só é possível com a consciência da antiga

Por Ronnedy Pires de Paiva - CRP 08/26257


O que você faria se lhe fosse dada a oportunidade de ter uma nova chance, uma nova vida, sem necessariamente precisar nascer de novo? Imagine que para ter essa nova chance, fosse preciso ter a sua memória totalmente apagada com o uso de uma substância química, ou seja, esquecer todas as pessoas que você conheceu, todos os traumas que te acompanharam durante a vida, todos os problemas que tiravam o seu sono, todos os lugares e alegrias de uma vida passada, para que a partir disso, possa iniciar uma nova jornada existencial, você aceitaria?


Não foi exatamente isso o que aconteceu com Jane Doe (Jaimie Alexander), uma misteriosa mulher que teve sua memória apagada e foi deixada totalmente nua dentro de uma mala na Times Square, uma das principais ruas de Nova York, Estados Unidos, e ainda endereçada ao FBI com o nome de um agente tatuado em suas costas. É sobre Jane e suas tatuagens recém feitas e que cobrem todo o seu corpo que a série norte-americana, Blindspot (Ponto Cego), criada por Martin Gero e estreada em 2015, tratará ao longo dos seus episódios, pois, além de não lembrar-se de nada, o que já é misterioso por si só, cada uma de suas tatuagens contém pistas de crimes que estão prestes a acontecer e que precisam ser evitados para proteger os Estados Unidos.


Sendo assim, Jane se junta ao agente especial Kurt Weller (Sullivan Stapleton), chefe do Grupo de Resposta a Incidentes Críticos do FBI , cujo nome estava tatuado em suas costas e, começam uma intrigante busca para evitar que esses crimes aconteçam e também para desvendar quem realmente é essa mulher.


É interessante pensar que foi dada uma nova oportunidade a Jane, uma chance de construir uma nova vida a partir da sua amnésia. Contudo lhe foi tirado o seu bem mais preciso, pelo menos naquele momento, que é a sua identidade, sua memória, aquilo que ela é ou era. Sendo assim, o que lhe restou enquanto pessoa?


A verdade é que todo ser humano possuí uma história que é impossível de dissociar da vida que se vive hoje, a memória de quem essa pessoa é, ainda que seja a mais tenebrosa de todas as memórias. Essa história e memória fazem parte do ser humano que se é no presente, e ter tudo isso apagado, seria para muitos uma dádiva inexplicável. Jane poderia agarrar-se a essa oportunidade e seguir em frente, porém ela não consegue desvencilhar o seu passado desconhecido do futuro a ser construído, porque resta uma pergunta crucial a ser respondida: afinal, quem é Jane Doe?


Ao longo dos episódios, alguns lapsos de memória começam a surgir e, aos poucos o seu medo de ter sido uma pessoa má antes de perder a memória começam a se revelar de forma contundente. A realidade é que Jane fazia parte da organização criminosa denominada Sandstorm, Jane na verdade, Alice Remi Kruger, é filha de uma ativista sul-africana e foi rigorosamente treinada por essa organização paramilitar. Esse grupo é responsável por ataques e crimes que o FBI tenta evitar. Tudo isso fazia parte dos planos da Sandstorm e de Jane antes da amnésia, entretanto, algo diferente estava acontecendo com ela e nela, e esse plano já não era mais sua vontade.


Nessa incrível trama, Jane conhece pessoas, se apaixona, se aventura em busca de ajudar outros e, é exposta a uma outra realidade, uma realidade totalmente diferente daquela em que ela cresceu e que buscava descobrir. Essas influências têm efeito em sua vida, de modo que começam a transformá-la. O interessante, contudo, é que as mudanças não acontecem quando ela perde a memória e começa a relacionar-se de forma diferente com o mundo, as mudanças realmente fazem sentido quando lhe é exposto quem ela era e quem ela poderia vir a ser. Somente quando Jane tem consciência da sua existência é que ela pode realizar mudanças cruciais e significativas em sua vida.

Jean-Paul Sartre (1905-1980), filosofo existencialista disse, certa vez, que “não importa o que fizeram de você, mas o que você faz com o que fizeram de você”. Jane tinha sido criada como uma máquina de guerra e por muitos anos assumiu esse posto, até que tomou consciência e decidiu não exercer mais essa função. É a partir dessa consciência que uma nova vida começa a florescer. É somente quanto conscientemente ela escolhe mudar o rumo de sua trajetória que as mudanças internas significativas acontecem. Vale lembra que o seu novo estilo de vida enquanto estava com amnésia, não vale por si só, não é uma mudança real, visto que o que ela construía enquanto estava sem memória é como se ela tivesse nascido de novo, como se estivesse novamente se construindo, mas agora com mais idade. Ou seja, não tinha uma base da vida anterior para se balizar, para compreender o que era preciso mudar e a partir daí, alterar o seu caminho.


Seria formidável se fosse possível apagar algumas coisas para depois recomeçar, mas isso não é possível, ainda que haja uma droga que possibilite o esquecimento, o que foi feito ainda terá existência naqueles que foram afetados, ainda fará parte da sua história, por isso, quando já não é mais possível mudar uma situação, um acontecimento, o ser humano é chamado a mudar a si mesmo, como diz o neuropsiquiatra austríaco e fundador da Logoterapia e Análise Existencial, Viktor Emil Frankl (1905-1997). Esse autor ainda traz outro ensinamento, dizendo que é preciso “viver como se estivesse vivendo pela segunda vez e, como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora”.


Assim como Jane só teve uma segunda chance a partir do momento em que teve consciência de sua vida e, a partir dessa compreensão escolheu modificar a sua existência e, não necessariamente quando teve sua memória totalmente apagada. Enquanto seres humanos somos chamados para olhar conscientemente para nossa história e, a partir dela, se for necessário, iniciar uma nova jornada existencial.




Ronnedy Pires de Paiva é psicólogo clínico (CRP 08/26257) sob a abordagem Fenomenológica Existencial.

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