Amor ou egoísmo: do que se trata?

por psicóloga Lêda Milazzo (CRP 09/10898)

No episódio 13, da segunda temporada de Station 19, fiquei intrigada com a reação de uma filha diante da finitude do pai.


Deixa eu situar você: um senhor de idade avançada, com câncer no pulmão em estágio IV, terminal. Lúcido, porém, cansado. Há um tempo usando equipamentos para respirar. Seu desejo é morrer em casa e não em um hospital.


Após um blackout, o prédio em que mora com a filha ficou sem energia e o sistema que o mantinha vivo desligou. Quando os bombeiros chegaram, a encontraram fazendo massagem cardíaca no pai. Solicitou que não o deixassem morrer.


Os bombeiros conseguiram reanima-lo. Só que....


Só que não era isso que ele queria. Sim, ele queria morrer. Ao “acordar” pergunta a filha por que ela não o deixou morrer. Todos silenciam nesse momento.


Logo depois, verbaliza a um dos bombeiros “ A Mila acha que estou brincando sobre querer morrer agora. Eu não estou brincando... Isso vai matá-la antes de me matar”; “Eu sofro demais, estou tão cansado. Mas, como eu falo pra minha filha ‘estou pronto pra ir”?


Mila escuta o pai dizendo que tem uma ordem legal. Primeiro, nega a existência do documento. Depois afirma que o documento existe, que ela é a procuradora, mas que o pai nunca a pediu para assinar.


Em meio a um vazamento de gás o prédio deve ser recuado e o Sr Eliot levado ao hospital, o que vai contra sua vontade. Com isso ele solicita que a filha assine o documento. Em um momento comovente pede que a filha fique ao seu lado, olhando as estrelas até que ele não as veja mais.


Começo fazendo questionamentos de trás para frente: quanto ao subtítulo ‘do que se trata? ’, você sabe? Bem, se trata de um documento chamado de testamento vital, em que a pessoa decide se quer ou não determinadas condutas médicas que prolonguem sua vida, mesmo que não tenha nenhuma possibilidade de cura.


Quando é nomeado um procurador, como Mila foi nomeada, o documento é o Mandato Duradouro (ou Procuração para cuidados de saúde). Esse documento, confere poderes de decisão à pessoa quando o paciente não pode decidir. Os dois documentos quando são feitos em conjunto recebem o nome de Diretivas Antecipadas de Vontade.


No Brasil não há uma lei que regulamenta tal documentação. Porém, ela é juridicamente aceita. Para que o documento esteja de acordo com a legislação brasileira, é indicado a consulta à um advogado.


E em relação ao título: Amor ou egoísmo da filha? Sinceramente, eu tenho a minha resposta para isso, até porque vivi situação semelhante. Porém, acredito que não venha ao caso.


Na verdade, quero deixar essa pergunta sem resposta... Mas, você, que está lendo esse texto pode (e até deve) tirar suas próprias conclusões. Se seu pai estiver lúcido, em estado terminal e sofrendo, o que você gostaria: que ele ficasse com você sofrendo ou que morresse e acabasse com suas dores? Você acredita que se deixa-lo morrer é porque não o ama?


É meu amigo, minha amiga, essa é uma pergunta bem difícil de ser respondida.... Deixo você encontrar a sua própria resposta.


Se quiser compartilhar o que achou do texto, bater um papo sobre o assunto ou conhecer um pouco mais sobre a temática estou à disposição. Você me encontra pelo WhatsApp (62)99951 1300, no insta @leda.milazzopsi e no site www.ledamilazzo.com.br.


Lêda Cristina Pinheiro Milazzo, Psicóloga (CRP 09/10898). Além do atendimento clínico, auxilia colegas psis a serem fonte de apoio a seus pacientes/clientes para que possam entender e vivenciar os processos de luto de forma saudável. Para que os enlutados, que busquem a ajuda desses profissionais, consigam viver o luto e não sobreviver de luto. Especialista em Psicoterapia Analítico-Comportamental e com especialização em Tanatologia: sobre a morte e o morrer. Pós-graduanda em Psico-oncologia.

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