8 em Instambul

por Renata Cristina Barbosa Castro - CRP 154906


Com temas contemporâneos, 8 em Instabul é um seriado inscrito e dirigido por Berkun Oya e Ali Farkhonde que demonstra historicidade, dualidade entre ciência e religião, composições familiares, violência, quadro depressivo, reclusão cultural, sofrimento, além do gênero feminino submisso à diversas formas de poder, sem a possibilidade de se posicionar até diante da sua vida própria e familiares. Vivem em um contexto conservador, cercado de inseguranças, incertezas, medos e ressentimentos; envolvidos pelo autoritarismo e sendo adoecidos por isto. Com um roteiro intenso, recheado de assuntos profundos, somos levados a nos envolver em diferentes maneiras de se viver, que nos faz refletir muito sobre a condição feminina, seu silêncio e aceitação, a dominação masculina abafando os sentimentos e desejos da mulher.


Atendimentos psicoterápicos acontecem durante os episódios, evidenciando-se a troca entre pacientes e terapeutas com suas implicações irremediáveis. Enquanto humanos que somos, terapeutas afetam e são afetados durante a troca com a história e contexto de seus pacientes se tornando relações de ajuda. O terapeuta pode optar pela neutralidade e por se esconder tecnicamente, o que lhe traz segurança em relação aos riscos e as ameaças da sua profissão e a inconstância da conexão com seu paciente. O que é apresentado ao longo dos episódios nota-se a importância dos terapeutas e psiquiatras tratarem suas demandas e questões más resolvidas, pois isto interferiu diretamente no tratamento de suas pacientes, daí conclui-se que a terapia pessoal é fundamental para estes profissionais.


Sendo afetado, o terapeuta é envolvido em sua história, se revelando, deixando à mostra suas fragilidades e angústias existenciais, momento importante do seriado que transparece a superação de traumas, rejeições e evidenciando ao expectador a humanidade do profissional. Entre um e outro episódio, é gerada uma ansiedade em quem assiste em defesa da mulher em especial, pois, de um lado, a conformidade da protagonista pelas condições sociais às quais é submetida praticamente sem escolhas, se colocando sob um fardo muito pesado pela religião e cultura. Por outro, mulheres que tiveram a coragem de se descobrir e mostrar sua identidade eram sinônimas de afronta a uma ideologia conspirada em advertências e penitencias. Há também certo preconceito envolvido e mesclado com indignação pelas condições de vida a que a maioria das mulheres é submetida.


Por fim, o seriado dramático e com muitas questões psicológicas, permite reflexões profundas sobre a cultura turca, maneiras de existir, modelos de família com suas escolhas, submissão, fragilidade feminina, depressão, preconceito, violência, individualismo, ideologia das religiões e a possibilidade de se libertar das amarras através da terapia, tanto para paciente como para terapeuta. O clima psicológico trazido pela série é sinalizado pela decorrente conjuntura política, conflitos sociais marcados pela cisão entre grupos de elite e intelectuais e, por outro lado, uma classe de pessoas conservadoras e religiosas. Podemos notar o abuso psicológico como forma de coerção, assim como a fragilidade feminina que fica cada vez mais dependente e submissa. Quanto ao abusador, é possível perceber a sua agressividade como uma forma de defesa em busca de mascarar a sua dor e fragilidade.


Emoções são reprimidas trazendo consigo suas consequências; o silêncio e reflexões internas marcam alguns personagens; situações de violência verbal, agressividade e desamor por parte do marido agravam o quadro depressivo da esposa Ruhiye, com tentativa e ideação suicida. 8 em Instambul também mostra duas jovens tendo um caso amoroso, quebrando tabus e afrontando a sociedade em que vivem e família. Todas as situações demonstradas durante os episódios nos fazem comparar com a realidade e contextos vivenciados ainda na contemporaneidade, nos conduzindo à reflexões e permitindo-nos enxergar que podemos e devemos fazer nossa parte em busca de uma vida mais leve, sem grandes fardos, construindo relações mais sadias e libertadoras.



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