The Good Place? [Contém Spoilers]

Atualizado: 30 de Set de 2018

por Deyse Medeiros, CRP 01/20480


“The Good Place” é uma série americana de fantasia e comédia, criada por Michael Schur, que mostra a vida após a morte de Eleanor Shellstrop. Após um acidente que a leva à morte, Eleanor acorda em um lugar chamado de "O Lugar Bom". Michael, o arquiteto responsável pelo Lugar Bom, a recepciona e informa que apenas as pessoas boas vão para esse lugar, após uma análise da pontuação obtida na Terra pelas boas ações. Eleanor percebe que houve um engano quando Michael a parabeniza por boas ações que ela na verdade não realizou.


No Lugar Bom, todas as pessoas têm uma alma gêmea. A alma gêmea de Eleanor, Chidi Anagonye, é um professor de Ética e Filosofia para o qual ela conta que não deveria estar no Lugar Bom. Chidi, que sempre teve problemas com mentiras e decisões, entra em um dilema ético, pois não sabe se dedura Eleanor para Michael ou se a ajuda, já que ela é sua alma gêmea. Os outros dois personagens principais da trama são Jason, um DJ da Flórida, que também foi confundido com uma pessoa boa, e sua alma gêmea Tahani, uma socialite que dedicou sua vida a causas humanitárias.


Do ponto de vista psicológico, a série brinca com as expectativas humanas a respeito da vida, mostrando, a princípio, uma dualidade que parece acalmar o sofrimento da dúvida e separar o joio do trigo: as pessoas que fizeram boas ações vão para o lugar bom e as pessoas que não fizeram boas ações vão para o lugar ruim (The Bad Place). Simples assim. Esse momento da série lembra o conceito de Melanie Klein da posição esquizoparanoide, que, de maneira simplificada, retrata uma fase da maturação psíquica do ser humano em que as experiências desagradáveis com um objeto externo ou introjetado não podem ser percebidas ao mesmo tempo que as experiências agradáveis com este mesmo objeto. Ocorre uma separação entre as duas experiências, como se o objeto não fosse o mesmo. Nessa etapa do desenvolvimento, o bem e o mal estão absolutamente separados, assim como na série.


Conforme a série avança, observamos Chidi tentando ensinar Ética e Filosofia para Eleanor e Jason, com o objetivo de tentar transformá-los em pessoas boas e, portanto, merecedoras de estar no Lugar Bom. Quando o plano começa a dar certo e Eleanor, de fato, consegue aprender conceitos éticos que fazem dela uma pessoa cada vez melhor, a farsa de sua presença no Lugar Bom se desfaz, porque ela mesma conta para todos que não merece estar ali. Nesse momento, a separação absoluta entre o bem e o mal na série começa a se desfazer. Eleanor e Jason são julgados e sentenciados a ir para o Lugar Ruim, mas no momento em que isso se anuncia, Eleanor tem um insight e percebe que, na verdade, eles já estavam no Lugar Ruim, porém sofrendo um tipo diferente de tortura: a tortura emocional e psicológica. Cada personagem, incluindo Chidi e Tahani, estavam sofrendo com dilemas relacionados às suas próprias fraquezas.

O momento em que Eleanor resolve abrir o jogo pode ser analisado como sua entrada na posição depressiva, ainda citando Klein. Nesse momento da maturação psíquica, o indivíduo percebe que o objeto de seu amor e de seu ódio na verdade era o mesmo, com características boas e ruins ao mesmo tempo. Além disso, o indivíduo começa a aceitar em si mesmo também as suas características ruins, levando a um processo de tentar reparar os erros cometidos. Michael, que nesse momento da série é revelado como sendo não um arquiteto do Lugar Bom, mas um demônio disposto a criar todo um cenário para torturá-los psicologicamente, não pôde prever essa mudança em Eleanor. Seu plano só funcionaria caso Eleanor jamais mudasse sua personalidade. Uma expectativa bem separada da realidade humana, que está sempre em constante mudança.


No final da primeira temporada, já fica claro que a separação entre o lugar bom e o lugar ruim não é assim tão nítida. Conforme a série avança na segunda temporada, Michael tenta fazer seu plano dar certo reiniciando o cenário e a memória dos personagens muitas e muitas vezes. Eleanor, entretanto, começa a desvendar o mistério cada vez mais rápido, até que Michael desiste e se junta a eles, para que sua própria falha não seja descoberta pelos outros demônios.


Nesse ponto a série ganha uma nova energia e o universo de “The Good Place” começa a se tornar mais complexo, mostrando uma ambivalência cada vez maior entre o bem e o mal. Até mesmo Michael começa a aprender Ética com Chidi e passa a vivenciar os dilemas do desenvolvimento psíquico humano, passando pela posição de total separação entre as emoções boas e ruins relacionadas ao objeto e depois entrando na posição depressiva, em que esse objeto é integrado e Michael passa a viver um momento de desilusão com sua própria vida.


Inicialmente, Michael decide ajudar Eleanor e os outros a irem para o Lugar Bom verdadeiro por motivos egoístas, pois ele não tinha escolha. Depois, entretanto, conforme avança nas lições de Ética, Michael começa a perceber melhor suas emoções e a tentar reparar o dano causado aos quatro. Eles conseguem, então, chegar à Juíza, que é neutra em relação ao Lugar Bom e ao Lugar Ruim, e ela aplica testes para saber se eles realmente se tornaram pessoas melhores. Todos falham no teste, exceto Eleanor, mas ela decide não revelar que conseguiu passar, pois não queria abandonar os amigos.


A Juíza então decide que eles só estão tentando se tornar pessoas boas por conta da recompensa, que é ir para o Lugar Bom verdadeiro. Michael é quem tem o insight nesse momento: percebe que eles só poderiam ser testados se voltassem à vida e tivessem o estímulo necessário para se tornarem pessoas boas. Com isso a temporada vai caminhando para o fim no momento em que Eleanor, já tentando se tornar uma pessoa melhor, encontra Chidi na vida real.


“The Good Place”, no fundo, é uma série que fala sobre o amadurecimento psíquico pelo qual todos passamos na vida a partir das experiências que vivenciamos e do contato com as pessoas ao nosso redor. A ambiguidade e a complexidade da vida não podem ser reduzidas a um universo em que as pessoas são separadas pelo seu número de pontos. A série nos convida a olhar para nós mesmos e para o mundo com olhos mais curiosos, procurando saber o que está por trás da aparência fria das análises de pontuação ou, para trazer para nossa realidade, talvez possamos procurar enxergar além das curtidas e comentários.


O final da temporada traz justamente essa mensagem de abraçar a complexidade humana e dar a si mesmo e aos outros uma segunda chance. É sobre cooperar em vez de competir uns com os outros. <3


Deyse Medeiros é Psicóloga (CRP-01/20480), com formação em Psicologia Econômica e Educação Financeira. Atua como Psicóloga Clínica em Brasília-DF e Psicóloga Online na interface Psicologia Econômica e Educação Financeira, oferecendo atendimento personalizado aos clientes que desejam se apropriar de suas escolhas e melhorar suas vidas financeiras.

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