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O Retorno do Egito Psíquico: O Processo de Individuação e o Trauma em Absentia

  • 7 de jun.
  • 6 min de leitura

por Patrícia Atanes de Jesus Bernardinelli - CRP 06/37052


Para as apaixonadas pela Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, poucas produções televisivas recentes oferecem um material clínico tão rico, visceral e arquetípico quanto a série Absentia. Enquanto a maioria dos suspenses policiais se contenta em resolver o enigma de "quem matou?", a narrativa protagonizada por Stana Katic (no papel da agente do FBI Emily Byrne) mergulha em uma questão muito mais profunda, de ordem puramente ontológica e psicológica: o que acontece com a alma humana quando ela é forçada a habitar o território da mais absoluta ausência?

Emily Byrne desaparece enquanto caçava um dos serial killers mais notórios de Boston. Declarada morta in absentia (daí o título da série), ela é encontrada seis anos depois em uma cabana isolada na floresta, trancada em um tanque de vidro cheio de água, sobrevivendo por um fio. Ao retornar, o mundo que ela conhecia não existe mais: seu marido está casado com outra mulher, seu filho não a reconhece e sua própria identidade foi apagada pelo tempo.

Sob a ótica junguiana, o cativeiro de Emily não foi apenas um isolamento físico; foi uma descida literal e traumática ao Unus Mundus, ao abismo do inconsciente e à escuridão da própria psique. O que se desenrola a partir de seu resgate não é apenas uma investigação policial, mas uma das mais potentes metáforas contemporâneas sobre o doloroso e violento processo de individuação.

O Tanque de Água e a Nekyia: A Descida ao Inconsciente

O ponto de partida para compreender Absentia à luz de Jung é a imagem do tanque de vidro onde Emily passa anos submersa. A água é, por excelência, o símbolo primordial do inconsciente — o elemento que acolhe, mas que também sufoca; que dá a vida, mas que pode diluir o Ego.

Os seis anos de desaparecimento de Emily representam o conceito junguiano de Nekyia: a descida mítica ao submundo, a noite escura da alma. Ao ser privada de estímulos do mundo exterior, de sua Persona (o papel social de mãe, esposa e agente da lei) e do contato com a realidade consensual, a consciência de Emily foi completamente inundada pelas águas do inconsciente coletivo.

Estar trancada naquele tanque significava estar suspensa no tempo e no espaço psíquicos. Quando ela é finalmente resgatada, o Ego de Emily não retorna intacto. Ele retorna fragmentado, despido de suas defesas habituais e assombrado por imagens arquetípicas. A amnésia que ela apresenta em relação ao período do cativeiro não é um mero esquecimento neurológico, mas sim um mecanismo de defesa da psique: o conteúdo daquela experiência é tão primitivo, terrível e avassalador que o Ego consciente precisa recalcá-lo para não se dissolver na psicose.

O Confronto com a Sombra e o Desmoronamento da Persona

Ao retornar à "superfície", Emily depara-se com o colapso total de sua Persona. No jargão junguiano, a Persona é a máscara que usamos para nos adaptar à sociedade. Emily sabia exatamente quem era antes do cativeiro: uma mulher forte, respeitada no FBI, uma mãe dedicada e uma esposa amada. Ao retornar, essa máscara não serve mais. O guarda-roupa de sua antiga casa agora pertence a outra mulher; os arquivos do FBI a tratam não como heroína, mas como suspeita de múltiplos homicídios.

Essa perda abrupta da identidade social força Emily a um confronto inevitável com a sua Sombra. A Sombra engloba tudo aquilo que o indivíduo recusa a admitir em si mesmo: os instintos primitivos, a agressividade, o medo do abandono e a capacidade para a violência. Em Absentia, a Sombra deixa de ser uma teoria e ganha contornos práticos. Para sobreviver ao cativeiro e, posteriormente, à caçada em que se torna o principal alvo, Emily precisa acessar uma agressividade feroz que sua antiga Persona civilizada jamais permitiria.

As alucinações e os surtos de fúria que a protagonista experimenta ao longo das temporadas são a manifestação dessa Sombra clamando por integração. Há um momento em que a própria narrativa faz o espectador duvidar da inocência de Emily: seria ela a assassina? Essa ambiguidade é brilhantemente construída porque reflete o drama interno da personagem. Ela mesma não sabe do que é capaz, pois o contato prolongado com o horror despertou o seu lado mais selvagem e arcaico. Para se salvar, ela é obrigada a aceitar que aquela violência também faz parte de quem ela é.

O Arquétipo do Órfão e a Reconstrução do Self

A jornada de Emily Byrne em Absentia é marcada pelo isolamento profundo. Mesmo cercada por familiares que tentam acolhê-la, ela permanece fundamentalmente sozinha. Esse isolamento ativa o Arquétipo do Órfão. O Órfão é aquele que foi ejetado do paraíso da segurança, que experimentou a dor do abandono primordial e que sabe que não pode confiar em nenhuma estrutura institucional (seja a família ou o próprio governo) para se proteger.

Na psicologia analítica, o objetivo final da vida humana não é a felicidade estática, mas a realização do Self (o Si-mesmo), o centro regulador da psique que une consciente e inconsciente em uma totalidade harmônica. No entanto, o caminho para o Self nunca é suave; ele exige a quebra das ilusões.

Emily é caçada pelos próprios colegas, traída por pessoas próximas e colocada à margem da civilização. Paradoxalmente, é justamente no estado de exclusão e perigo que o processo de individuação ganha força. Longe das amarras das expectativas alheias, Emily deixa de tentar recuperar a "vida que tinha antes" (o que seria um retrocesso neurótico) e começa a forjar uma nova síntese de si mesma. Ela passa a integrar a fragilidade da vítima que sofreu abusos no tanque com a força implacável da sobrevivente.

O Trauma como Catalisador do Processo de Individuação

Muitas abordagens psicológicas enxergam o trauma apenas como uma patologia a ser curada ou um dano a ser reparado. A Psicologia Analítica, sem jamais diminuir o sofrimento real da experiência traumática, busca enxergar o aspecto teleológico do sintoma — isto é, para onde o sofrimento está nos apontando? Qual é o propósito desse colapso?

Em Absentia, o trauma de Emily atua como um terrível, porém poderoso, catalisador de transformação. Se ela tivesse continuado em sua vida perfeita e linear no FBI, seu processo de diferenciação psíquica poderia ter estagnado na superfície de uma existência confortável, mas superficial. O cativeiro quebrou o espelho de sua realidade. A reconstrução da identidade de Emily exige que ela mergulhe na própria história, revirando segredos de sua infância no orfanato, compreendendo suas escolhas e acolhendo suas cicatrizes.

A série nos ensina que a individuação não nos torna pessoas "normais" ou ajustadas aos padrões sociais vigentes; ela nos torna autênticos. Ao final de sua dolorosa jornada, Emily Byrne não é a mesma mulher que desapareceu seis anos antes, tampouco é a criatura assustada que emergiu do tanque de água. Ela se torna alguém que conhece a extensão de sua própria escuridão e a força de sua própria luz.

A Beleza da Cicatriz Integrada

Absentia é um thriller psicológico de ritmo frenético, mas, acima de tudo, é um monumento visual à resiliência da psique humana. Ao escolher a Psicologia Analítica para decifrar a trajetória de Emily, percebemos que o verdadeiro mistério da série nunca foi o nome do sequestrador, mas a capacidade humana de renascer das cinzas do próprio apagamento existencial.

Para os amantes da psicologia em especial da Psicologia Junguiana, a série deixa uma lição indelével: as águas profundas do inconsciente e os tanques de isolamento que a vida nos impõe através do trauma podem nos ferir profundamente, mas também são os únicos lugares onde podemos encontrar o material bruto necessário para reconstruir uma identidade verdadeiramente inabalável.

uma mulher vestindo uma camisa listrada em preto e branco, com os braços cruzados e sorrindo levemente.

Patrícia Atanes de Jesus Bernardinelli é Psicóloga Junguiana, Mestre em Psicologia e Saúde Mental com Especialização em Terapia Sistêmica Familiar e Avaliação Psicológica, Docente e Coordenadora do Curso de Psicologia na Anhanguera São Bernardo, pós graduada em Psicologia Jurídica e Criminal Profiling – Psicologia Investigativa. Atende Adolescentes, Adultos e Casais em consultório particular em São Bernardo do Campo/SP. Atua em casos da vara da família ou da infância como perita e/ou auxiliar técnica de acordo com a solicitação do fórum ou de uma das partes.

Seus interesses estão voltados para relacionamentos, transtornos e síndromes diversas que atingem os adolescentes e adultos (incluindo depressão, suicídio).

Sua paixão está no entendimento do funcionamento da Psique e seus simbolismos além da busca dos conceitos e preceitos psicológicos na literatura e cinema.


Além de sua colaboração como escritora no blog psicologiaemseries acompanhe seu trabalho em:

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