Expectativas nas relações

por Giovanna de Boni Fraga - CRP 07/29470


Dash & Lily é uma série inspirada nos livros: ‘’O Caderninho de desafios de Dash & Lily’’, produzida pela Netflix. O seriado contém apenas oito episódios, e foi lançado um mês antes do Natal para que pudéssemos refletir sobre a vida, o amor e as festas de final de ano. O primeiro episódio começa dias antes do Natal, quando Lily decide esconder um caderno cheio de desafios numa livraria, esperando encontrar alguém especial para passar o resto do ano. Quem encontra é Dash, que sem pensar duas vezes, topa se envolver no plano desafiante de conversar com um estranho através de um papel. Sem nem se conhecerem pessoalmente, os dois descobrem que têm muito mais em comum do que imaginavam. O que os motiva a continuar a conversar cada vez mais. Isso faz com que eles desenvolvam pouco a pouco um profundo sentimento de acolhimento um com o outro, além de uma sensação de reconhecimento, e de bem estar, mesmo que através de um simples caderno. Parece incrível, até que os dois se veem perdidos em meio a expectativas irreais que criam em relação um com o outro. Mas antes de mais nada, vamos conhecer um pouco melhor a história de cada um.


Dash é um adolescente enojado, irritante e pedante. Ele tem muitos muros em volta dele, que não deixam ninguém ultrapassar. Muitos acham que é uma mala, pois quase nunca está para os amigos, que são poucos e raros. Ele é bastante complicado. Dash tem dificuldade de se abrir, não gosta de conversar sobre trivialidades. Na época de Natal ele fica ainda mais introspectivo, misterioso e inquieto, como se a aura natalina não combinasse com toda a profundidade que guarda dentro de si. Esse jeito um pouco mais rude de Dash se dá pelo fato de que seus pais se separaram em um Natal quando ainda era apenas uma criança. Ele não tinha culpa, só que de alguma forma se sentia triste e solitário por não ter mais os dois pais juntos na mesma casa. Já Lily é o extremo oposto de Dash. Ela é otimista, tranquila e doce. Sempre vê o lado positivo das situações, por mais difíceis que sejam. Ela não lida bem com coisas ruins, nem sentimentos ruins. Fica repetindo a si mesma que se chover, é preciso procurar o arco-íris. Lily não tem amigos, prefere a companhia de pessoas mais velhas, não vai em festas, nem faz loucuras que possa se arrepender. Sua família é o seu porto seguro, se sente protegida e ancorada com eles. O que é bom, mas a impede de crescer, e ver o mundo pelos próprios olhos. Apesar de Dash e Lily serem opostos, de alguma maneira, eles conseguiam se entender, pois estavam dispostos a ir um até o outro.


Contudo, ainda que Dash seja amargo, e Lily, doce, cada um deles dois tem um lado que poucas vezes aparece, mas existe. Dash mesmo sendo fechado, pessimista e inconstante também é um amigo leal, um filho educado, um rapaz meticuloso. Quando namorava Sofia, a garota por quem fora apaixonado na época do Natal, e que o fazia se sentir menos solitário, Dash acreditou que o amor fosse capaz de curar seu coração ferido da infância difícil que teve com seus pais divorciados. Porém, quando Sofia teve de se mudar, foi como se seu mundo tivesse balançado, e o seu coração quase curado tivesse aberto as feridas outra vez. Já Lily não era feliz e positiva o tempo inteiro. No geral, ela se sentia insignificante e deslocada, devido a um garoto que na época de escola havia a humilhado. Por causa dele, ela ficava em casa invés de sair e fazer amigos. Ela não ia a festas, fugia de baladas. Ela se sentia tão traumatizada com aquela situação, pois ele havia a inibido de querer sair, viver, e de certa forma, a impedia de fazer todas as coisas que queria fazer por muito tempo. E o que mais doía nela era que mesmo depois de tanto tempo, ele nem mesmo se lembrava. Lily queria ter confrontado todo mundo que a tinha feito se sentir esquisita, diferente ou asiática demais. Podemos assim perceber que tanto Dash quanto Lily escondiam um lado que tinham, por medo de transpassar aos outros um comportamento que sentiam bastante, mas que acreditavam não ser conveniente aos olhos dos demais.


Com o passar da série, os dois começaram a ter sentimentos profundos e verdadeiros um pelo outro, ainda que se conhecessem apenas através de palavras escritas em um caderno vermelho. Somente as palavras já não pareciam ser suficientes, precisavam se conhecer pessoalmente. Com isso, vários questionamentos passaram a surgir, medos advindos do passado tornaram a assombrar, expectativas começaram a se criar. Lily tinha a referência de Boomer, melhor amigo de Dash, que nas poucas vezes em que se encontram descreveu algumas atitudes peculiares que tornavam o amigo único. Além de alguns parentes com quem ela pode contar, que não tiveram uma boa impressão do rapaz, e a auxiliaram para se afastar. Por outro lado, Dash, tinha a referência da garota apenas através de Mrs. Basil E, que nada mais era do que a tia-avó de Lily, ou seja, ela a conhecia muito bem. Contudo, o ponto de vista dos outros eram apenas opiniões quanto àquilo que viam e acreditavam saber sobre eles dois, que não necessariamente era verdade, pois tinham lados que nem sempre mostravam a todos. O que nos faz refletir quanto a quem somos com os outros, e quais as expectativas que se criam através das imagens que se constroem a partir daquilo que imaginam sobre nós.


Somos um reflexo das experiências passadas, das vivências aprendidas ou não, das crenças geradas. Tudo aquilo que construímos desde a nossa infância nos molda a ser quem somos no presente. Mas elas não são uma condição, pois temos a possibilidade de modificarmos essas experiências através da mudança de comportamento, pensamento e sentimento. Independente da vivência de cada um, todos nós temos expectativas, alguns mais, outros menos. A expectativa nada mais é do que um estado ou qualidade de esperar algo que seja viável ou provável que aconteça. É um grande desejo ou ânsia por receber uma notícia ou presenciar um acontecimento positivo. O sentimento de expectativa só pode existir na ausência da realidade, isso significa, quando a motivação para que algo aconteça ainda não se tornou viável e real, sendo apenas uma condição presente no desejo do indivíduo. A expectativa nada mais é do esperar no sentido de ficar aguardando que aconteça, fazendo algo em relação a isso, ou seja, esperar com confiança que nada mais é do que ter esperança. Contudo, quando as expectativas estão altas, corremos o risco de nos decepcionar, e também, nos frustrar. Não dá para viver sem, pois são elas que dão sentido à nossa vida. Precisamos ter sonhos, porque é a nossa razão de viver. Ainda que não aconteça como imaginamos, eles são a nossa esperança de um futuro melhor. Sonhar alto pode fazer com que se chegue ao topo de uma árvore centenária, por outro lado, sonhar baixo pode ser que nem do solo se saia.


As lições que temos a aprender com as expectativas geradas por Dash e Lily é que precisamos observar o que tem coerência com a realidade. Independente se estamos criando expectativas em relação a um relacionamento amoroso, a um trabalho importante, ou a um empreendimento novo, temos de ter em mente sobre como as coisas são. É importante sonharmos com os pés no chão, para não ficarmos decepcionados com a realidade. Os dois criaram diversas idealizações sobre o outro que nem todas correspondiam à verdade, por isso, acabaram se frustrando. Outra lição aprendida é que não existe um roteiro de relacionamento perfeito. Por mais que conseguissem se entender tão bem, esqueceram que há desafios em uma relação que, às vezes, nem mesmo o amor é capaz de salvar, caso os dois seres envolvidos não tenham maturidade o suficiente para lidar. E por fim, é que quando pedimos informações sobre alguém, para um amigo ou um conhecido, devemos ter em mente que são apenas opiniões vindas de fora. Cada pessoa tem uma perspectiva única sobre as pessoas, por isso, vale mais a pena descobrir por si só e tirar as próprias conclusões, do que viver de opiniões. Dash e Lily tiveram dificuldade em ver além das referências que haviam recebido, o que foi complicado na hora de se encontrarem fora das páginas do caderno vermelho. Os dois tinham expectativas irreais em relação ao outro, contudo, o que compartilharam através das suas palavras, foi real. E no momento que as expectativas se dissiparam, e a realidade tomou conta, o amor fluiu.


Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Relatos Porta Adentro, com o intuito de trazer leveza ao tempo de quarentena. Através do autoconhecimento ajuda pessoas a se conectarem com a sua criatividade.




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