As fabulosas irmãs Jones

por Giovanna de Boni Fraga - CRP 07/29470


Queer Eye, o reboot da série de mesmo nome do canal Bravo, recebe um novo grupo de integrantes para compor o Fab Five na Netflix. O objetivo do programa é de continuar o legado da série anterior através do auxílio para com pessoas que precisam de ajuda para transformar suas vidas. Formando o novo quinteto fantástico do seriado temos: Antoni Porowski, especialista em alimentação; Bobby Berk, especialista em design e decoração; Jonathan Van Ness, especialista em cuidados pessoais; Karamo Brown, especialista em cultura e Tan France, especialista em moda; com o intuito de através das especialidades de cada um, possam juntos, facilitar a mudança de ocorrer de fato na vida das pessoas. Muitas vezes, a transformação já está acontecendo, só que nem todo mundo tem facilidade para acatar, por isso que precisam de ajuda e aceitá-la quando for oferecida. Esse é o caso das irmãs Jones. As duas churrasqueiras de mão cheia em Kansas City que buscam levar o nome da família enquanto espalham amor e carinho através dos seus alimentos deliciosos, só que não conseguem admitir que precisam de apoio. Izora, filha de Deborah que também é conhecida como Little e sobrinha de Mary que é apelidada de Shorty, teve a ideia de chamar o Fab Five, com o intuito de retribuir tudo o que as duas fizeram para ela quando esteve na faculdade. Será que as irmãs Jones vão baixar a guarda para aceitar a ajuda?


Com trinta e cinco anos de experiência como churrasqueiras, as duas irmãs Jones aprenderam com o seu pai como levar adiante o negócio da família. A churrascaria foi passada de geração em geração. As duas sabem como se virar, como trabalhar em equipe, como vender os produtos oferecidos, contudo, não sabem pedir ajuda. Little, trazia roupas limpas no carro, só que não tinha uma bolsa para levar o que precisava, era tudo em um saco de lixo que usava como bolsa. Shorty, por outro lado, parecia não ter nenhum problema desse tipo, apenas era perceptível o quanto o seu sorriso a incomodava, pois toda vez que sorria ou gargalhava ela cobria o rosto com as mãos, o que é um problema, já que afeta a confiança. As irmãs Jones, por mais que parecessem heroínas das suas próprias histórias, ainda assim, precisavam de ajuda, como todos os seres humanos, só para elas era complicado fazer isso já que aprenderam desde cedo a se virarem sozinhas. Além do mais, nenhuma delas permitia relaxar, nem tirar um tempo para descansar. Era como se a vida girasse em torno do trabalho, sem nenhum entretenimento, ou momento de relaxamento. Elas não tinham um momento para parar e se cuidar. E isso é comum observarmos em muitas pessoas, que doam todo o seu tempo, sem ter um instante para si mesmos. Só que quanto mais descansarmos, e cuidarmos de nós mesmos, mais teremos energia para darmos aos outros, sem precisarmos nos desgastar. Às vezes, tudo o que precisamos fazer é dizer ''não, quem sabe da próxima vez, hoje não posso’’.


As irmãs Jones além de guerreiras, eram empreendedoras. Há anos vendiam o churrasco delas, contudo, não conseguiam comercializar seu molho especial, pois a empresa de enlatados tinha muita burocracia, além de estar fora do orçamento que tinham para gastar. Então, Antoni, especialista em alimentação de qualidade, foi atrás de toda a documentação, e conseguiu tornar possível o sonho das irmãs de lançarem o próprio molho especial para além do Jones Bar-B-Q. Feito o processo para vender o molho em diversas redes de mercado, as duas foram encontrar Tan, especialista em moda, para ajudá-las a se vestirem de forma confortável, mas também elegante. Apesar de elas usarem bastante as vestimentas de trabalho, era possível ver um estilo diferente de cada uma, Little era mais clássica e Shorty mais ousada. Enquanto mudavam de roupa até encontrarem algo que se sentissem bem consigo mesmas, Tan as incentivava a serem audaciosas, e não terem vergonha do próprio corpo, afinal era delas. Ele dizia que ter um quadril maior, ou até mesmo seios maiores, era para mostrar, pois é o corpo que tem, é perfeito da forma que é. Na nossa sociedade, somos pressionados por padrões estéticos e de beleza irreais, que não fazem parte da realidade em que vivemos. Independente de como nosso corpo é, com curvas ou reto, apenas queremos ser respeitados, sem precisarmos ter de pedir para que nos respeitem.


Após escolherem roupas conforme seus próprios estilos, as irmãs Jones foram a um salão de beleza para cuidar dos cabelos, fazer massagem nas costas, arrumar as unhas e tudo que tem direito para que pudessem se sentir mais à vontade consigo mesmas. Jonathan que estava cuidando disso, observou que Shorty ao se olhar no espelho, cobriu a boca outra vez ao ver o quanto havia ficado bonita, e ele disse brincando: ''você odiou né?’’; apesar de que ele sabia que era pelo fato de seus dentes ainda a incomodarem. Pensando em quanto os dentes acabam sendo um ponto de referência para autoestima de uma pessoa, pois afinal, queremos nos sentir bem com nosso próprio sorriso, Jonathan decidiu levar Shorty a um tratamento odontológico, pois desde o começo percebeu o quanto ela gostava de sorrir ainda que tapasse a própria boca em vários momentos. Ouso dizer que foi uma das cenas mais emocionantes do programa inteiro, já que a irmã Jones deu a mão para seu companheiro do Fab Five para ir com ela durante o procedimento, e disse a ele assim que se olhou no espelho: ‘’posso sorrir de novo’’. Muitas vezes não temos essa percepção do quanto o sorriso é importante até encontrarmos alguém que adore sorrir, mas sente vergonha dos seus próprios dentes. Claro, que pode ser algo cultural, que vem da sociedade, que nos faz acreditar que precisamos ter os dentes brancos, retos e sem nenhum defeito, só que é difícil pois a arcada dentária varia de pessoa para pessoa.


Os Fab Five deixaram vários aprendizados para que possamos refletir agora, depois de conhecermos as irmãs Jones. Karamo falou do quanto trabalhamos duro para levarmos um futuro interessante às futuras gerações, para que tenham a melhor vida possível, mas esquecemos das nossas próprias vidas. Bobby comentou sobre a importância de darmos um passo para trás, e analisarmos tudo à nossa volta. Tan foi simples e direto, comunicando para pedirmos ajuda quando necessitamos. Antoni também foi objetivo, relatando que não somos invencíveis. E por fim, Jonathan, declarou sobre amarmos a nós mesmos para podermos amar outras pessoas, para assim, não nos desgastarmos. Eu concordo com todos eles. Não podemos esquecer da nossa vida, dos nossos sonhos para cuidarmos dos apenas dos outros sem focarmos em nós mesmos. Precisamos pedir ajuda para não ultrapassarmos nossos limites, chegando à exaustão, pois pedir apoio é importante para não chegarmos a esse ponto. Ainda que sejamos heróis das nossas próprias histórias, devemos lembrar de que está tudo bem sermos vulneráveis, já que não somos invencíveis. Não devemos esquecer da importância de termos um período de descanso, pois sem ele é difícil termos foco, atenção e dedicação para trabalhar, sem falar em todas as possíveis doenças que podem acarretar, como: síndrome de burnout, insônia, transtornos alimentares, problemas de pele e depressão. Então, ser forte é perceber o momento de pedir ajuda aos outros; ter consideração a si mesmo é compreender a importância do descanso; ser corajoso é mostrar ao mundo quem se é, ainda que não seja perfeito como a sociedade preza, pois no fundo, a perfeição é um lugar inalcançável, e portanto, inexistente.




Giovanna de Boni Fraga é escritora e psicóloga, formada pela PUCRS. Idealizadora do Projeto Relatos Porta Adentro, com o intuito de trazer leveza ao tempo de quarentena. Através do autoconhecimento ajuda pessoas a se conectarem com a sua criatividade.



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