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A Penúltima Palavra, Das Letzte Wort - "Funerais Personalizados."

por Ana Claudia Lourenço CRP 5/41795


A Penúltima Palavra é uma série alemã que nos traz importantes reflexões sobre a vida, a morte, o luto e os relacionamentos. Neste texto focarei no tema "Funeral", tomando como base a nova profissão de Karla Fazius.


Após a morte de seu marido, Karla descobriu que sua situação financeira não era boa e que precisava trabalhar. Considerando os acontecimentos que vivenciou no funeral de Stefan, Karla resolveu investir na carreira de “oradora certificada”.


Na verdade, ela desejava ser um tipo de “consultora”, ela queria fazer um trabalho diferente das outras funerárias, não queria ler um texto padrão, que não refletisse a vida e a história da pessoa falecida. A princípio, sua ideia era organizar funerais humanizados, refletindo os desejos, as características e personalidade dos falecidos.


Seu primeiro cliente foi o Sr Nowak, viúvo de Sara. Segundo ele, Sara era uma mulher cheia de vida e por isso, ele não queria um funeral aleatório, com um discurso que não a representasse, ou que fosse deprimente. No dia do funeral, Karla falou algumas palavras e convidou todos os presentes a saírem da capela. Ao som de uma banda, todos andaram até o sepulcro, declamando suas últimas homenagens para Sara, em forma de música. Ao final, Sr. Nowak agradeceu, estava feliz, porém os pais de Sara não pareciam ter gostado daquele funeral tão diferente.


No funeral de Meik, jogador de futebol de 43 anos, Karla falou que “era melhor ter 45 minutos de um futebol incrível, que ter 90 minutos desperdiçados”, enfatizando a vida breve e bem aproveitada de Meik. Não tivemos muitos detalhes deste atendimento, mas pudemos perceber a conexão que o discurso de Karla trouxe aos presentes.


A Srta Letizia Kronberg foi uma cliente bem desafiadora, ela realizou o funeral de sua mãe, Elizabeth Kronberg. Letizia tinha uma longa lista de exigências deixadas pela falecida, coisas como: ter um funeral com muita alegria, sem choros, com dança, etc. Karla quis saber mais sobre a personalidade da mãe de Letizia e foi aí que as questões pessoais vieram à tona. Letizia trazia grandes mágoas referentes aos sentimentos de inferioridade, culpa e abandono, em relação a mãe falecida. Elizabeth era professora de ioga e trabalhava com desabrigados. No funeral, após a apresentação de um coral, a oradora Karla apresentou a falecida como uma pessoa prestativa e admirável, afirmando que era daquela forma que ela achava, que todos gostariam de se despedir dela. Naquele momento, Letizia levantou-se xingou a mãe, cuspiu na direção de seu caixão, gritou que ela havia cuidado de todos, menos dela, e golpeou o caixão com uma cadeira. Ao final, Letizia agradeceu a Karla, dizendo que pela primeira vez em sua vida, poderia fazer o que desejasse.


Pudemos observar que Letizia conseguiu apoio, através de Karla, para colocar para fora todos os sentimentos ruins que alimentava em relação a sua mãe. Também pudemos perceber que ela ainda não sabia bem o que fazer ou como viver sozinha.


O cliente Rapha, acometido por um câncer, foi tratar de seu próprio funeral, acompanhado de seu atual marido, de sua ex-esposa e de sua filha. Todos os familiares queriam fazer as vontades e os desejos de Rapha, porém Karla preferiu conversar com cada um dos parentes em particular, ouvindo de cada um, o que falariam sobre Rapha. Mais tarde, visitando um mausoléu para o possível funeral, Karla conversou com Rapha e explicou que a cerimônia fúnebre deveria ser feita para os familiares e não para a pessoa que já se foi. Ela falou que ele estava tendo a oportunidade de se despedir de todos e ainda de resolver os conflitos que poderiam existir. Para ajudar a família, Karla fez uma dinâmica onde todos falaram o que pensavam sobre Rapha, como se ele já estivesse morto, porém com ele ouvindo todos os comentários. Rapha então percebeu que a família apenas queria ficar mais tempo com ele, agradeceu a Karla e disse que teria que pensar em algumas questões que haviam sido levantadas.


Karla conseguiu fazer Rapha refletir sobre as prioridades de sua vida. Se ele escolheria curtir seus dias com a família, resolver possíveis conflitos, ou preocupar-se com um funeral que ele nem poderia participar diretamente.


O casal Lena e Max Gronert, buscou os serviços funerários após o falecimento do filho de 16 anos. Cyril havia sido atropelado por um trem enquanto tentava amarrar o gato do vizinho aos trilhos. Karla foi à casa do casal para entende melhor sobre o rapaz falecido e descobriu que, apesar de ele ter sido uma criança inteligente, atenciosa e prestativa, ele apresentava um comportamento estranho desde os 7 anos, era muito sozinho, sem amigos e gostava de torturar animais. A mãe não queira revelar este segredo, mas o pai sentiu necessidade de contar, pois apesar de estar se sentindo triste, ele também estava aliviado. No discurso do funeral, Karla falou aos pais que eles tiveram na verdade dois filhos em apenas um. Naquele momento eles estavam se despedindo de um, mas que o outro, eles iriam guardar para sempre em seus corações.


Karla conseguiu acolher os pais de Cyril e fazer um discurso identificando o conflito dos sentimentos que o pai trouxe para ela. A tristeza de perder o filho inteligente e amado, com a sensação de alívio por saber que ele não mataria mais nenhum animal, nem correria o risco de ser preso, agredido ou assassinado.


A família que procura uma agencia funerária para o processo de sepultamento ou cremação de um ente querido, geralmente está muito sensível e fragilizada. O trabalho de acolhimento diferenciado que Karla desenvolveu, foi fundamental para muitas das pessoas que ela atendeu. Karla foi capaz de captar a essência das pessoas envolvidas e de cada uma das situações. Nem sempre todos ficavam satisfeitos, mas como ela mesmo falava: “Não se pode agradar a todos”.


Apesar de nossa cultura ser diferente da apresentada na série, a empatia e o acolhimento aos envolvidos em processos de luto é de fundamental importância.



Ana Claudia Lopes Lourenço é Psicóloga, Master Coach Pessoal e Consultora de Recursos Humanos.


Seu trabalho tem como base a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Psicologia Positiva.


Acompanhe seu trabalho:




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